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A luta pela descolonização continua

Não há estudante português da área de Humanidades que não tenha lido Immanuel Kant (1724-1804). Saberá que o filósofo alemão foi dos primeiros a elaborarem uma teoria sobre a existência de raças e a defender a superioridade europeia? E que o intelectual que defendeu a ideia da igualdade e dignidade humana escreveu passagens explicitamente racistas em relação aos negros, pondo em causa a sua capacidade para produzir conhecimento?

Não foi por acaso que o nome de Kant surgiu nos títulos dos jornais britânicos no início do ano académico. “They Kant be serious! Estudantes Politicamente Correctos querem que os filósofos brancos, incluindo Platão e Descartes, saiam dos currículos da universidade” titulava o sensacionalista Daily Mail.

O artigo era sobre como a associação de estudantes da School of Oriental and African Studies (SOAS) queria tirar “autores brancos do currículo”. A associação lançou uma campanha sobre o legado do “colonialismo epistemológico” dentro da universidade. Um dos objectivos era assegurar que a maioria dos filósofos ensinados nos seus cursos seja do Sul do globo ou da diáspora, já que “o foco da SOAS é a África e Ásia”. E no programa escrevia a frase da polémica: “Se for preciso estudar os filósofos brancos, então que se ensine a partir do ponto de vista crítico. Por exemplo, dando conta do contexto colonial em que os chamados filósofos do Iluminismo escreveram”.

A ideia de confrontar uma “instituição branca” concretizou-se. Choveram críticas. Mas a reacção à campanha foi assombrosa, diz ao P2 por e-mail um membro da Decolonizing Our Minds Society, grupo ligado a SOAS, mas com mais de 12 mil seguidores no Facebook. “Os currículos das universidades, como estão, são demasiado fechados e rígidos, desprezam muito facilmente as tradições intelectuais não europeias”, afirmou a fonte que preferiu falar pelo grupo. Houve foi uma distorção da campanha pelos media, acrescenta, “histeria indicativa da forma como se trata determinado tipo de conhecimento como sendo sacrossanto” que “mostra nervosismo à simples noção de o escrutinar criticamente”.

A Decolonizing Our Minds Society não quer substituir todos os pensadores europeus por não-europeus, explica, mas analisar a forma como certas tradições se desenvolvem, como é que os currículos e os cânones podem ser formados. “Estamos interessados nas políticas do conhecimento, e em desenvolver tradições que têm sido esquecidas e que podem enriquecer imenso o mundo”.

Mesmo na SOAS há bons exemplos, diz, como as cadeiras Descolonizar o Mundo e História Global. O que é que significa um currículo ser “descolonizado”? De que pode ser composto? Que mudanças pode provocar? Estas são questões que podem ser colocadas noutros países. Até porque há um movimento de “descolonização” em várias partes do mundo – que está a crescer, calcula a Decolonizing Our Minds Society.

E que se afirma em Portugal.

A Plataforma Gueto é um movimento social negro e desenvolve há cerca de quatro anos um programa de formação política na zona da grande Lisboa, baseado na ideia de educação popular ao qual chama de universidades – o último encontro em Fevereiro teve como convidado Bob Brown, membro dos Panteras Negras e do All-African People’s Revolutionary Party.

O objectivo é “descolonizar o conhecimento eurocêntrico e alienador”, explica um dos membros, Flávio Almada. “Queríamos criar um espaço de discussão sobre a luta e conhecimento decolonial [corrente iniciada na América Latina para pensar criticamente a perspectiva eurocêntrica]”. Baseia-se na ideia de universidade popular “porque há um grande desfasamento entre a população e a academia”, que está cada vez mais distanciada dos “problemas que afectam a nossa população” afirma.

Fundada há mais de uma década, a Plataforma tem, aliás, como reivindicação a revisão dos manuais escolares de História portugueses por retratarem “os negros de forma insultuosa e pejorativa”, pela versão que dão da escravatura e do colonialismo, e por falarem da História de África como “não tendo história antes do contacto com os europeus”, explica outro membro, Jakilson Pereira.

Formado em Educação Social, Jakilson Pereira critica o modo como o “pensamento é branquizado” em relação ao contributo “que os negros deram para a humanidade”. No fundo, é como se os negros “não tivessem uma palavra a dizer”. Para colmatar essa invisibilidade a universidade da Plataforma quer fazer aquilo que a universidade tradicional e a escola normalmente não fazem e debater autores como Frantz Fanon, Marcus Garvey, Amílcar Cabral entre outros. Quer quebrar a visão única veiculada por europeus e ocidentais brancos em que os negros aparecem ou como “vítimas ou como vilões”, sublinha. “Sabemos a falta que a escola portuguesa tem, não aborda o negro enquanto autor, enquanto pensador, nunca aparece como filósofo ou intelectual”. Isso interfere na auto-estima dos jovens, sublinha, que crescem a pensar que determinados papéis não podem ser assumidos por negros. Daí a aposta da Plataforma na formação da comunidade.

PÚBLICO -

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CARLA CARVALHO TOMAS / PUBLICO

O olhar de fora

A falta de diversidade na universidade foi sentida por estudantes como Carla Fernandes, tradutora e fundadora do áudio blogue Afrolis. “Lembro-me de ter tentado introduzir o pensador indiano Homi K. Bhabha para abordar conceitos como hibridez e ambivalência e ter de defender o trabalho oralmente por ter utilizado uma abordagem considerada pretensiosa pela docente”, diz a jornalista que foi estudante de tradução entre 2002 e 2006, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Na altura, a resistência em olhar para diferentes pensadores e abordagens sobre o que era a tradução era bastante forte, nota. “Dez anos depois, ao estudar temas relacionados com meios de comunicação étnicos [no mestrado em Comunicação Cultura e Tecnologias], deparei-me com um professor universitário que, ao notar que não tinha autores na bibliografia que pudessem sustentar a minha argumentação, esforçou-se por procurá-los. E conseguiu encontrar vários pensadores africanos e indianos, por exemplo, que vieram a ser essenciais para a minha tese”. Conclui: “Ou seja, o esforço para que haja uma mudança no sentido de se incluir pensadores não ocidentais nos currículos não é do sistema, depende da motivação de indivíduos”.

Também a socióloga Cristina Roldão, 36 anos, notou o excesso de eurocentrismo no seu curso no ISCTE, onde não havia uma bibliografia que permitisse a discussão e confronto entre o património de autores afroamericanos como W. E. B Du Bois e William Julius Wilson e autores europeus como Pierre Bordieu ou Max Weber, por exemplo. “Ficamos mais pobres por não termos tanta diversidade de visões”, comenta a única jovem negra numa turma de 60 alunos, entre 2000 e 2005. “O debate sobre o eurocentrismo implica uma tomada de posição, não é um paradigma totalmente aceite”, analisa. “É uma questão de especialistas que não ganhou raízes na máquina”, completa a autora de um estudo sobre os afrodescendentes e o ensino.

O facto de vivermos numa sociedade que nega a questão racial, continua, faz com que a ideia de “descolonização do ensino” não seja levada a sério. “Pode aparecer um professor [que o valorize] mas não é geral. Todos os grandes autores que estudei eram homens e brancos. Não haver autores negros nos currículos tem também a ver com a falta de representação de professores negros”, considera. Carla Fernandes comenta: “Em mais de vinte anos como estudante nunca houve mais de um ou dois professores não brancos”.

Essa é, de resto, uma das grandes críticas que faz a brasileira Mojana Vargas, 42 anos, ao curso de doutoramento em Estudos Africanos, no ISCTE, onde está há três anos. Embora o currículo tenha uma presença significativa de autores africanos em grau equivalente de importância aos dos autores ocidentais, no corpo docente “a situação é muito diferente”. “O nosso programa não conta com nenhum professor africano”, diz a co-organizadora de um conferência sobre Activismos em África, que levou dezenas de africanos e dezenas de afrodescendentes portugueses ao ISCTE recentemente.

Também não há nenhum investigador africano. “Sempre me perguntei: como podemos não ter um professor africano quando temos uma quantidade tão grande de estudantes africanos de diversas regiões?” Mojana Vargas, natural de São Paulo, responde: “Primeiro há falta de recursos que decorre da queda dos investimentos nessa área específica de conhecimento. Segundo, há uma questão ainda mal resolvida em Portugal na relação com os países africanos, e essa problemática acaba por travar um intercâmbio académico que seria muito frutífero de parte a parte, independentemente de se realizar entre universidades portuguesas e instituições dos PALOP ou de outras regiões do continente”.

Os outros eixos

Uma das grandes referências do movimento anti-colonial, Frantz Fanon (1925-61), autor de Os Condenados da Terra e de Pele Negra, Máscaras Brancas, teorizou sobre a necessidade de descolonização do pensamento. É por isso uma das grandes referências sobre a ideia de que as relações de poder estabelecidas pela dinâmica colonial vão além da saída efectiva do território ocupado.

Já nos anos 1950 a descolonização se tornou uma palavra de ordem em universidades africanas ou na afro-diáspora, lembra Iolanda Évora, investigadora do Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina, e professora no mestrado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). A Europa é que não tem acompanhado esse debate, e isso é “um indicador de quão colonizado é o conhecimento que produz”.

A questão como é levantada agora pela SOAS surge num momento em que os eixos de produção de conhecimento também passam por outras rotas não necessariamente europeias, afirma. “A circulação do conhecimento faz-se, também, e de forma cada vez mais intensa e directa, entre os centros de pesquisa de África com a América do Sul, a Ásia, o Médio Oriente”.

Interessante é observar que os estudantes da SOAS estão a colocar “a dúvida sobre a pertinência e validade do conhecimento”. Quem faz pesquisa em África e Ásia na SOAS talvez comece a verificar que o seu trabalho não é “tão referenciado”, interpreta, “há uma perda de hegemonia”. “Começam a perceber que os sujeitos em África não se reconhecem no conhecimento que é produzido sobre eles, nem nas representações que são veiculadas sobre África através do trabalho académico”.

Em Portugal, o problema está no conhecimento que se tem da história colonial, que os currrículos não tratam, e da história de África.

Recentemente integrada no corpo docente do ISCTE, mas no Centro de Estudos Sociais, a antropóloga muçulmana Faranaz Keshavjee também afirma que ainda há pouca pluralidade na docência. A universidade ainda “é muito branca”. A sua chegada ao ISCTE não deixa de ser um exemplo de como se pode “descolonizar o conhecimento” porque significa “a integração de alguém que vem de uma formação que é para lá do pensamento ocidental”.

A antropóloga teve um contexto formativo diversificado e é essa experiência, também adquirida no Instituto Ismaelita em Londres, que quer passar aos alunos. A filosofia de formação ismaelita é a de que um aluno nos Estados Unidos deve conhecer o pensamento que se produz em África e vice-versa em relação ao resto do globo, misturando referências. A antropóloga quer trazer para dentro da universidade conhecimento que tem origem em outras realidades além das académicas. “O conhecimento tem que ser o mais holístico possível”, acredita.

Afinal o que é a descolonização?

Está em Portugal desde 2004. Moçambicana, Maria Paula Meneses chegou à Universidade de Coimbra através do centro de pesquisa criado com investigadores fora da Europa, pelo sociólogo Boaventura Sousa Santos. A ideia, explica, era mostrar o que cada um estava a produzir noutros pontos do globo. Formada em História na Rússia e doutorada em Antropologia nos Estados Unidos, professora em Moçambique, a sua experiência cruza a Europa oriental e ocidental, África, América. Lança a questão da própria ideia de descolonização: o que é? “Um moçambicano responde que foi uma conquista pela luta armada, um português dirá que foi a outorga da independência a terceiros”, lembra.

O paradigma a partir do qual se olha faz com que a realidade seja mais caleidoscópica. Basta pensar na forma como a Europa criou uma geografia imaginada, que muda consoante a sua conveniência. Dá o exemplo do Egipto: na Antiguidade é visto como parte da Europa, na modernidade “desloca-se” para África. “O meu problema não é com o que a Europa produz, é com o excepcionalismo europeu”, comenta.

Investigadora coordenadora do Centro de Estudos Sociais, onde diz que se faz pesquisa “com e não sobre” sujeitos de outras partes do mundo, sublinha que “a História que usamos como macro-narrativa é produzida pelo Atlântico Norte, onde os outros têm que se encaixar”.

É preciso deslindar os equívocos, salienta, por exemplo relativamente à Idade Média, período que é menosprezado pelo Norte mas foi de grande florescimento em termos de conhecimento e marcou o aparecimento de várias universidades no Sul do globo, como em Coimbra, Bolonha, Marrocos, Egipto. Ou sobre o Iluminismo, onde algumas grandes teorias aparecem como originais quando na verdade se tratam de apropriações – a teoria do ciclo da história de Ibn Khaldun (tunisino, século XIV/XV) é um exemplo, diz.

A especialista em estudos pós-coloniais afirma que “estamos permanentemente a analisar África a partir de uma ficção produzida sobre nós”, na América, na Europa. Daí a necessidade de olhar para o colonialismo “do outro lado”, de “fazer contraditórios dentro da própria universidade”.

Foi uma dessas funções de contraditório que Maria Paula Meneses foi cumprir na Universidade de Coimbra. Afinal, quem estava a dirigir o CES, Boaventura de Sousa Santos, defende que há uma tarefa a cumprir: a descolonização da universidade, embora tenha que “envolver todo o sistema de educação e os meios de comunicação social”.

O que é descolonizar os currículos da universidade? “Significa reflectir criticamente sobre o impacto que o colonialismo teve no modo como os europeus viram o mundo não europeu, cujos recursos naturais avidamente exploraram e saquearam”, afirma o sociólogo que é uma das grandes referências internacionais nesta área. Lembra que em 1900 tinha sido exterminada aproximadamente 80% da população indígena, “maior do que a população da Europa em 1492”.

O autor de Epistemologias do Sul ou Descolonizar el saber, reinventar el poder usa a imagem de uma “dupla sociologia das ausências” para explicar o impacto do colonialismo ao nível do conhecimento: “Por um lado, desconheceu, ocultou, menosprezou ou instrumentalizou todos os conhecimentos e culturas não europeias, usando uma ou outra estratégia consoante as conveniências do projecto colonial. Por outro, ocultou e marginalizou todo o conhecimento produzido na Europa que contrariava a empresa colonial.”

Para se descolonizar é preciso, então, reconhecer e combater “essa dupla ausência” trazendo ao debate democrático e enriquecendo-o com “a diversidade dos conhecimentos e das culturas tanto dentro como fora da Europa”.

Ensinar criticamente

Ora, diz Inocência Mata, professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os currículos académicos deveriam justamente ser o local privilegiado para lutar contra “a colonialidade do saber”. Isso seria uma das formas de criar uma mentalidade onde as questões menos consensuais, como a colonial, se discutam com pluralidade e diversidade. Mas para que aconteça é, então, importante conhecer o que se faz noutras geografias, afirma a especialista em estudos pós-coloniais que tem reflectido sobre lusofonia, racismo, colonialismo. “É elementar saber o que o outro pensa de si próprio” e “conhecer os vários pontos de vista com que se tecem as narrativas da história global”.

Em Portugal ainda é preciso incentivar mudanças quanto a esta matéria, refere, por seu lado, o antropólogo Miguel Vale de Almeida: ensinar criticamente o colonialismo português e “desmontar a forma como as teorias luso-tropicalistas se tornaram banais e hegemónicas mesmo depois do 25 de Abril”; “abordar o racismo estrutural, mais do que o racismo interpessoal”; e “ensinar e ler a bibliografia pós-colonial e decolonial, sobretudo aquela que é feita fora dos grandes centros de produção”.

Por muito importante que seja a História, esta análise “não pode ficar só nas mãos de historiadores, como tende a acontecer em Portugal por causa do peso da área e da obsessão identitária”. Tem de incluir os que têm trabalho feito no terreno “com pessoas de hoje, cá e nas ex-colónias”.

O director do Departamento de Antropologia do ISCTE insiste ainda que não se pode interpretar sistematicamente o colonialismo com base, apenas, nas grelhas de análise anglo-americanas. “Precisamos de pensar o caso português e das ex-colónias portuguesas como específicos – o que não significa subscrever excepcionalismos e luso-tropicalismos”, analisa, referindo que foi justamente esse esforço que foi feito em Trânsitos Coloniais, por historiadores e antropólogos de Portugal e Brasil, e editado por Bela Feldman-Bianco, Cristiana Bastos e ele próprio.

Exorcizar os fantasmas do império

Miguel Vale de Almeida refere que é comum atacar-se campanhas como a da SOAS, dizendo que o objectivo é substituir o cânone por algo novo. “Nada disso, trata-se de garantir pluralidade de vozes e epistemologias, pô-las em confronto”, analisa. “Pelo menos não subscrevo a substituição total, nem a manutenção do cânone – subscrevo a pluralidade ou até, se for preciso no limite, cadeiras separadas e os alunos que as confrontem”. Para concluir: “Estamos num tempo em que se procura rapidamente a caricatura que sirva de suposta justificação para o ataque ao politicamente correto como se fosse uma ditadura. O verdadeiro perigo para mim está neste contra-ataque por Vaticanos, islâmicos fundamentalistas, evangélicos, Putins, Le Pens e Trumps…”

Lembrando que a SOAS foi fundada para servir o império britânico – como o foi, em Portugal, a Escola Superior Colonial, depois Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina e, finalmente, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Inocência Mata critica as diferenças de abordagens nos dois países. “Lá existe a consciência da colonialidade que ainda impregna as mentalidades e os currículos académicos, discute-se a necessidade da descolonização e de se exorcizar os fantasmas do império. Aqui, vitupera-se quem fala dessa colonialidade, que é exaltada como uma mais-valia histórica.”

Sadiq Habib, que em 2015 terminou o mestrado em Pensamento Político Comparado na SOAS e estudou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova de Lisboa, acha que este tema nem sequer é discutido dentro das universidades portuguesas por falta de “representatividade no corpo docente” e por falta de “diversidade no corpo estudantil”. “É uma questão de reprodução de poder que só se altera se houver demandas para que aconteça. As políticas de produção e reprodução de conhecimento denunciam a forma como o colonialismo e a desigualdade” ainda operam, acrescenta.

Em Portugal, “a branquitude é esmagadora no espaço público e académico”. Apesar disso, e mesmo vivendo fora do país, nota uma “crescente representatividade de jovens no ensino superior” que “se tem reflectido na emergência” de um debate sobre o colonialismo e racismo, por exemplo. A conferência Activismos em África foi um desses casos.

Curiosamente, lembra, este movimento de descolonização da universidade vem na sequência de um debate que começou em universidades da África do Sul e da América Latina. Só depois é que fez o seu caminho até ao “centro” Norte. Foi quando chegou à Europa que se tornou notícia aqui, também neste jornal, agora. A descolonização continua.

Publicado originalmente no Público pela Jornalista Joana Gorjão Henriques

https://www.publico.pt/2017/03/19/sociedade/noticia/a-luta-pela-descolonizacao-continua-1765568

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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Publicado por em Março 19, 2017 em Plataforma Gueto

 

Entrevista de Anne Bocandé a Amzat Boukari-Yabara

“A história contemporânea de Áfricaé o Pan-Africanismo”

Rejuvenescer o pan-africanismo. É o que propõe o investigador Amzat Boukari na sua obra publicada por La Découverte, Africa Unite! Uma história do pan-africanismo. Africultures foi ao seu encontro.
Evocou o pan-africanismo como um conceito filosófico, um movimento sociopolítico ou uma doutrina de unidade política. Qual é a definição de pan-africanismo?

O pan-africanismo nasceu em fins do séc. XVIII, mais ao menos ao mesmo tempo que o liberalismo e o socialismo. É, assim, uma ideologia muito antiga, que se distingue das outras duas pela sua consciência histórica, pela sua identidade “geográfica”. O pan-africanismo está ligado a um continente, a um espaço. O pan-africanismo é o equivalente em África ao conceito de Ocidente na Europa. A Austrália, a América do Norte e a Europa Ocidental agrupam-se num mesmo imaginário dito “ocidental” que mostra que a divisão do mundo é, na realidade, o reflexo da circulação dos homens e das ideias. Da mesma forma, é pan-africana toda a sociedade que conserva uma identidade africana na sua evolução, na sua relação com o outro e na sua relação com a ideia de emancipação.
Por outro lado, há um aspecto historiográfico: quando se diz que a história da África contemporânea começa em 1885 com a conferência de Berlim ou em 1960 com as independências, isso não faz sentido nenhum. Interessava-me mostrar que o pan-africanismo nasceu ao mesmo tempo que o liberalismo e o socialismo, que estão ligados à Revolução francesa, à Revolução americana, à industrialização, etc. A história contemporânea de África é o pan-africanismo. Tem exactamente a mesma profundidade histórica. Portanto, em consequência, se se quiser escrever a história de África, tem de se partir do pan-africanismo.

Observa que se trata de uma história ligada a um continente, a um espaço, mas não necessariamente a uma cor de pele. Quer dizer?

O pan-africanismo começou por ser um pan-negrismo, um sentimento de solidariedade entre os Negros deportados para as Américas no quadro do tráfico transatlântico. Este crime contra a humanidade acompanhou a expansão do capitalismo, quer dizer, do sistema mais aperfeiçoado de exploração e dominação global do homem pelo homem, portanto, do sistema que está na origem do mundo tal como o conhecemos hoje. O racismo – que estigmatiza e assimila a pele negra à condição servil nas Américas – teve por resposta uma auto-identificação, desta vez positiva, dos Negros com África, mas uma África que era mais imaginada do que representada. Esta imaginação vem das passagens da Bíblia sobre a Etiópia ou das narrativas dos escravos, e dará mais tarde origem aos escritos do Renascimento de Harlem e da Negritude.
Aliás, as dificuldades internas do Haiti a seguir à independência arrancada em 1804, ou ainda o fracasso da colónia afro-americana da Libéria, criada em 1847, vão mostrar que não basta partilhar a mesma cor de pele para construir uma sociedade harmoniosa ou um projecto político comum. Assim, a denúncia da colonização de África sob os imperialismos europeus nos anos 80 do séc. XIX vai levar os militantes afro-americanos e caribenhos a sobrepor a sua própria condição de segregados ou de colonizados à dos Negros que viviam num continente que redescobriam por intermédio dos primeiros historiadores afro-americanos. África passa então do imaginário a uma entidade política concreta, quando se espalha a notícia da vitória da Etiópia sobre a Itália, em Adwa, em 1896.
Etiópia, Haiti, Libéria… Cria-se um espaço, e, em 1900, em Londres, na presença de militantes negros mas também de simpatizantes brancos, a conferência pan-africana sublinha, pela fórmula muito subtil de DuBois, que o grande problema do séc. XX não será a cor da pele, mas a “linha de cor”. O que nos é possível e que devemos fazer consoante se esteja de um ou do outro lado dessa linha? É esta reflexão que mobilizou os militantes pan-africanistas em torno de figuras como Marcus Garvey e Tovalou Houenou ou, mais tarde, Amílcar Cabral e Steve Biko.
Em Angola, na África Austral, na Argélia, de facto, por toda a África onde a independência resultou de uma luta armada, a questão da linha de cor foi abolida pela luta. Grupos mestiços e muitos Brancos a título individual, realizaram por vezes esforços mais consequentes a favor da libertação e da unificação do continente que alguns grupos negros cooptados pelas forças colonialistas ou neocolonialistas. Na medida em que a divisão do mundo em continentes é por si mesma muito problemática e discutível, é, portanto, a consciência histórica que determina a relação com o espaço, que permanece o portador até hoje dessa “linha de cor”.

Contrariamente a muitas ideias feitas, explica que o pan-africanismo nasceu no Haiti, ou seja?

Na realidade, o pan-africanismo nasceu nas Américas, mas o seu conceito político, quer dizer, a unidade dos povos africanos num conjunto federal, existe desde há muito mais tempo em África, através, por exemplo, dos reinos e impérios saelo-sudaneses. O Gana, o Mali, o Songhay, tinham estruturas políticas e sociais pan-africanas, que agrupavam um mosaico de povos em alianças sofisticadas.
Entretanto, Santo Domingo era, em 1791, a colónia mais rica das Américas, com uma mão-de-obra servil africana que representava 90% da população. A revolução conduzida nesse momento por Africanos de diversas origens assinala sobretudo uma viragem histórica: a primeira abolição imposta por escravos aos amos, o fim de um sistema de exploração económica que se vai reciclar sob a forma da dívida da independência imposta pela França ao Haiti, e o nascimento do segundo Estado de origem africana que, a seguir à Etiópia, conheceu desde a sua criação uma continuidade histórica e jurídica.
Confrontados com uma ordem mundial hostil, os militantes haitianos deram-se conta de que a sua liberdade nada era sem a liberdade de toda a zona das Caraíbas, de África e talvez até de outros lugares, se pensarmos na naturalização, a partir de 1805, de soldados polacos e alemães que tinham desertado das fileiras bonapartistas para se juntarem aos combatentes africanos. Ao apoiarem as lutas de emancipação ou a resistência encarnadas por Simão Bolivar, José Marti ou Ménélik, os militantes haitianos como Anténor Firmin e Benito Sylvain mostraram que a história do nascimento do seu país, e portanto do pan-africanismo, devia ser uma força à altura de devolver ao mundo o seu equilíbrio. Assim, presentemente, para lá da questão das reparações, muitos militantes pan-africanistas defendem que o Haiti, actualmente membro observador da União Africana, seja verdadeiramente investido por projectos de emancipação para além daqueles que se referem ao humanitarismo neoliberal e militarista.

Como explicar a relativa ausência, até agora, de documentação em francês?

A bibliografia que existe é maioritariamente em língua inglesa. Existe um título da colecção Que sais-je muito antigo, de Philippe Decraene, muito datado, com bastantes erros, bem como algumas obras como as de Oruno Lara. De início, propus uma reactualização do pan-africanismo, em edição de bolso. Quando os editores de La Découverte receberam o manuscrito, quiseram alguma coisa com mais peso, que pudesse ser uma referência na matéria e colmatar precisamente esta lacuna historiográfica. Quando fiz pesquisa para o doutoramento, trabalhei com as figuras do pan-africanismo. Trabalhei principalmente com fontes anglófonas, encontrei os militantes envolvidos na unidade africana, e tive ocasião de me dirigir à União Africana em Adis-Abeba. Pude então confrontar a lógica institucional e a lógica militante, quais eram as contradições menores e maiores. E envolvi-me pessoalmente num movimento, a Liga Pan-africana – Umoja (LP-U) [movimento pan-africanista criado em França em 2012, NDR].
Tive ocasião de conhecer figuras históricas, pouco conhecidas, algumas entretanto falecidas. É em sua homenagem que me dispus a escrever esta obra. E também para reconciliar as gerações. Há muitos nomes do pan-africanismo entoados pelos jovens de modo encantatório, mas por detrás disso não existe forçosamente substância. Com este livro, pretendia-se portanto dar uma linha orientadora a esta história, elaborar uma reflexão sobre a necessidade de reconduzir o pan-africanismo a uma lógica militante, internacionalista, e de rejuvenescer conceitos um pouco malbaratados pelos acontecimentos que resultam da relação de forças desfavorável a África.
Tudo o que é científico e cultural, a partir do momento em que afecta África, tem necessariamente um alcance político e ideológico. E era necessário reinscrever o pan-africanismo na história das ideias, das lutas sociais, políticas e culturais. O pan-africanismo é um movimento muito fragmentado devido à sua própria evolução e à desigualdade dos saberes entre aqueles que o reivindicam. Há quem domine as definições do pan-africanismo e das lógicas anexas, como o marxismo, o socialismo, etc. E há outros que apenas o aparentam, e alguns são claramente impostores.

Na sua obra, refere-se diversas vezes à fissura entre a intelectualização do movimento e o interesse popular no pan-africanismo?

Isso continua a estar presente, e faz parte dessa história, nomeadamente se continuarmos a marginalizar os artistas. Os artistas fizeram a ponte entre popular e político. Daí o título de Africa Unite, saído da canção de Bob Marley. Com este livro, tratava-se modestamente de passar as fronteiras um pouco por todo o lado nos países do Sul.

Muitas das figuras presentes nesta obra são personalidades anglófonas, nomeadamente afro-americanas. Corresponde à realidade do pan-africanismo?

Existem também referências contemporâneas no meio francófono: Thomas Sankara continua a exercer um fascínio extraordinário junto dos jovens. Na África Ocidental há muitas clivagens. Os historiadores e militantes políticos Cheikh Anta Diop e Joseph Ki-Zerbo apoiam o projecto federal de Nkrumah, mas há quem se oponha. Assim, Senghor era a favor, como Houphouët-Boigny, da manutenção de relações privilegiadas com a França, em oposição à vontade de ruptura total defendida por dirigentes e militantes desaparecidos muito cedo, entre 1958 e 1961, como Um Nyobe, Boganda, Lumumba ou Fanon.
Hoje, na reprodução de figuras pan-africanas, as sociedades africanas têm um atraso de duas ou três gerações a recuperar. Existem igualmente experiências mais íntimas no Benin, no Mali, no Congo, que são mais localizadas. No Benin por exemplo, existem projectos para o regresso de caribenhos, nomeadamente a família Jah, que conheci, ou o Instituto do Professor Honorat Aguessy em Ouidah. Há, portanto, para lá das grandes figuras, intimidade com o pan-africanismo.

Contudo, como se explica a relativa ausência de figuras francófonas em comparação com as referências anglófonas?

Em 1919, aquando do Congresso Pan-africano organizado em Paris pelo deputado francês do Senegal Blaise Diagne, a pedido do militante negro americano DuBois, deu-se a ruptura entre francófonos e anglófonos. Desde essa data, os francófonos têm estado ausentes dos congressos pan-africanos. E na altura das independências, a ruptura, a aparência de ruptura que se viu no meio anglófono, não ocorreu no movimento francófono, que ficou alinhado com Paris, com o referente da metrópole. No espaço anglófono existe uma diversidade de experiências: a situação africana, a situação afro-caribenha, a situação negra americana, a situação jamaico-britânica…
Toda essa diversidade de situações provocou o debate, a circulação de ideias, e também a reflexão, a teorização e uma outra relação com a cultura política. Dado que o modelo britânico está imbuído de uma tradição monárquica parlamentar e multiculturalista enquanto o modelo francês é republicano, centralizado e assimilacionista, as leituras divergem relativamente à herança colonial. O que permite sair deste paradigma pós-colonial que confunde a análise comparada, nomeadamente do ponto de vista da história política de África e das Caraíbas, é precisamente a introdução do pan-africanismo como critério de análise das interacções.
Evidentemente que houve centelhas como a Présence africaine [casa editora, Paris / Dakar, NDR], os congressos da Sorbonne, figuras meteóricas como Frantz Fanon, figuras censuradas como Aimé Césaire, que não são historiadores como tal, mas que não deixam de ser referências, inclusive para o mundo anglo-saxónico. Existe, portanto, esse retraimento, esse carácter subversivo que faltou nas situações africanas e afro-francesas, e igualmente uma repressão que eliminou diversas figuras, e movimentos como a FEANF [Federação dos estudantes africanos em França, NDR], no final dos anos 50, que teriam podido criar essa dinâmica. Sublinhemos igualmente uma lógica de predação ao nível do pensamento, que faz com que muitos intelectuais africanos francófonos sejam constrangidos a exilar-se ou a fazer cedências do ponto de vista ideológico para sobreviver.

Existe um pan-africanismo lusófono?

Há muito pouca coisa, pouca documentação sobre o pan-africanismo no mundo lusófono. Mas nesse espaço há uma juventude muito migrante, potencialmente muito consciente dos desafios que se colocam, devido ao facto de os pais terem em grande parte sido formados no quadro dos movimentos de libertação. As ex-colónias portuguesas têm a particularidade de ser mais dispersas geograficamente do que os outros territórios colonizados, e, de repente, após as guerras civis, principalmente em Angola e em Moçambique, passou-se sobretudo à escrita de histórias nacionais em detrimento das regionais ou pan-africanistas. Há assim um défice a esse nível. Défice que não pode ser colmatado unicamente pelo facto de o Brasil, que alberga a mais importante diáspora africana, se ter comprometido a financiar os volumes da História Geral de África em português. Por fim, existe um movimento pan-africanista embrionário em Lisboa, que parece bastante isolado mas dinâmico. O mundo lusófono constitui com efeito um desafio muito interessante.

Quais são os desafios, na Europa, do pan-africanismo ?

A Europa foi sempre um lugar de encontro, de intercâmbio, mas também de repressão. O desafio consiste em criar novos espaços, novas formas de libertação, numa perspectiva internacionalista. A Europa está confrontada com um certo número de crises, mas mantem uma política de predação sobre o continente africano, e a opinião pública sobre África oscila entre a imagem de um continente onde só há desgraças e o de um espaço emergente. E temos a interrogação de todas as diásporas africanas aqui presentes, que se colocam a questão da integração ou do regresso.

Justamente, em vez de pan-africanismo, vários intelectuais e não só reivindicam de preferência uma identidade afro-europeia ou afropolitana. O que pensa disso?

As identidades afro-europeias e afropolitanas parecem-me acompanhar completamente a moda actual, ou seja, são simultaneamente decepcionantes e estimulantes. São grandemente apolíticas e extra-africanas, e parecem-me noções de classe, de divisão intelectual do trabalho ou de separação económica e social entre os africanos, consoante têm ou não liberdade para ir e vir entre África e a Europa. A condição afropolitana pode fazer lembrar a dos “evoluídos”, dos africanos julgados mais “civilizados” pelo poder colonial, segundo os critérios desse mesmo poder. Temos assim o risco de falar de afropolitanismo sem estudar as análises de DuBois sobre a teoria da “dupla consciência” ou de Fanon sobre o factor cosmético de identidade e de alienação em Pele Negra Máscaras Brancas. Continuando na análise de DuBois, os Afropolitanos serão os 10% de africanos dos quais se pensa que, por atingirem um estatuto económico e social muito bom, desempenharão o papel de elevar os restantes? Não creio, não é o caso. O pan-africanismo, apesar das críticas que procuram mostrá-lo como um projecto utópico ou exclusivo, contém esta ideia de agrupamento e de solidariedade que me parece necessária para enfrentar o individualismo de um mundo em crescente ocidentalização.
Mais uma vez, não se trata de nos opormos, mas de fazer com que as identidades que evocam a reconciliação ou o hibridismo como “afro-europeu” não sejam simplesmente novas formas de assimilação, de aculturação e de dominação num mundo onde sabemos que a cultura dominante continua a ser frequentemente a da economia ou a do sistema ideológico dominante.
Numa entrevista concedida recentemente a uma revista francesa, a escritora nigeriana Chimananda Ngozi Adichie rejeita aliás essa etiqueta que lhe querem colar, afirmando ” Africana sim, Afropolitana de certeza que não”. E explica que não vê necessidade de criar uma categoria para um tipo de pessoas que sempre existiu. A história do pan-africanismo é feita de homens e mulheres de origem africana que nunca deixaram de viajar, de ligar mundos e de cruzar identidades. É a história do pan-africanismo que contém as camadas de sedimentação maioritariamente africanas e acessoriamente não-africanas sobre as quais as identidades afro-europeias e afropolitanas afloram, mas de maneira superficial.

Qual é o desafio do pan-africanismo em África?

Em termos de estratégia e de filosofia políticas, não se pode utilizar uma ideologia estrangeira para lutar contra outra ideologia estrangeira; não se pode utilizar o socialismo para combater o liberalismo. Não faz sentido nenhum. É preciso, pelo contrário, utilizar uma ideologia que seja conforme à trajectória histórica das populações visadas, para se chegar a uma libertação alternativa. E essa reflexão é eminentemente importante, porque nesta relação com o ultraliberalismo, África é objecto de um consenso sino-ocidental de dia, e de uma intensa guerra económica de noite. Para sair dessas alternativas, qualquer uma delas um impasse, temos de nos voltar para o pan-africanismo.

Publicado Originalmente em :http://jornalcultura.sapo.ao/dialogo-intercultural/a-historia-contemporanea-de-africa-e-o-pan-africanismo

http://africultures.com/lhistoire-contemporaine-de-lafrique-cest-le-panafricanisme-12768/#sthash.a6UeWHjf.dpuf

 
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Publicado por em Fevereiro 20, 2017 em Plataforma Gueto

 

Manecas Santos: “Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”

Manecas Santos: “Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”

Combatente da Liberdade, Manuel dos Santos, o Comandante Manecas, está nos dois momentos que ficam para a história da guerra colonial: o assalto ao quartel de Guiledje e a introdução dos mísseis Strella no cenário da luta pela independência. No pós independência, acaba por ficar na Guiné-Bissau, onde chegou a ser Ministro das Finanças e embaixador em Angola. De passagem por Cabo Verde, aceitou dar uma entrevista ao Expresso das Ilhas. E foi uma conversa sem tabus.

Expresso das Ilhas — Era estudante de engenharia em Lisboa quando resolve abandonar a universidade e entrar na luta pela libertação. Quais foram as suas motivações?

Manecas Santos — Uma era a situação colonial que se vivia em Cabo Verde, que era terrível. Aparentemente, aqui, já se começou a esquecer como era Cabo verde há sessenta ou setenta anos, quando se morria ainda de fome. Eu era miúdo, mas assisti à última fome que houve em Cabo Verde, vivia então em Santo Antão. E, de facto, há coisas que não se esquecem. Ver gente morta na estrada por não ter nada para comer. Por outro lado, o PAIGC logo depois da sua fundação enviou um dos militantes mais antigos, o Abílio Duarte, para agitar as águas do ponto de vista político em Cabo Verde e ele foi parar ao Liceu de São Vicente, onde eu estudava. É do Abílio que eu ouço, tinha 15 ou 16 anos, as primeiras coisas sobre nacionalismo, política, etc. Depois, fui para Lisboa estudar, o meu irmão também já lá estava e ele estava muito ligado aos meios estudantis de esquerda o que, obviamente, teve alguma influência sobre mim. Continuámos a encontrar-nos com outros jovens da mesma geração e fundámos em 62/63 o primeiro comité do PAIGC em Lisboa e tínhamos contacto com o secretariado-geral em Conakry através de uma pessoa que estudava em Paris na altura, o António St. Aubyn. Portanto, a motivação foi esta, não só a situação colonial que se vivia em Cabo Verde, mas também todo um trabalho político que terá começado com a ida do Abílio Duarte para Cabo Verde.

E não havia o sentimento de medo? Afinal, estava-se a arriscar a própria vida quando se embarcava numa aventura dessas.

Nós éramos jovens. Eu tinha 22 anos quando saí de Lisboa, nessa altura o medo não é muito (risos).

Na Guiné-Bissau tem um contacto próximo com Amílcar Cabral…

Não tão próximo. Eu era soldado, encontrei-me com ele várias vezes, obviamente. Agora, o que lhe posso dizer é que continuo a pensar que sou um discípulo de Amílcar.

Amílcar Cabral que é considerado um humanista, por certos historiadores, mas também capaz de ter posições duras, como no seguimento do congresso de Cassacá.

Não acho que haja contradições. O Amílcar não teve posições assim tão duras. Basta lembrar que o Congresso de Cassacá não condenou ninguém à morte.

Mas, posteriormente acabaram por ser mortos vários comandantes.

Nem posteriormente. O único indivíduo que foi morto era um dos comandantes de guerrilha balanta, porque resistiu à prisão. De resto, o congresso de Cassacá não condenou ninguém à morte e Cabral era formalmente e publicamente contra isso.

 

Há documentos que falam na morte de vários comandantes e não apenas de um.

É falso. Há muita gente interessada em fazer da história do PAIGC um mistério muito grande, com uns indivíduos maquiavélicos, é tudo mentira.

O sucesso do PAIGC na Guiné-Bissau pode ser explicado pelos vectores: Cabral, saúde e educação para a população, a ajuda militar cubana e soviética e o apoio logístico da Guiné-Conakry?

E a ajuda da Suécia, não te esqueças. Nos anos finais da guerra. Ajuda que não era em armamento, mas era uma ajuda humanitária extremamente importante.

Saúde e educação para a população foi uma estratégia para mostrar o que o PAIGC poderia dar?

Acho que não foi estratégia, era um imperativo. Em 1963 começaram a aparecer as primeiras áreas que já não eram administradas pelo poder colonial e essas áreas tinham de ser administradas e tinham necessidades. É claro que essas necessidades, principalmente de educação e saúde, foram, eu diria, sabiamente orientadas por Cabral no sentido de um desenvolvimento maior das pessoas. E não foi só a saúde e a educação, foi a justiça, foi a polícia, foram os tribunais populares, enfim, toda uma série de medidas que se tomaram e que eram importantes para administrar as áreas libertadas. E ainda dando atenção a uma matéria que está hoje na moda e que o PAIGC já falava há 60 anos que é o problema do género. As aldeias eram administradas por um comité eleito e nesse comité havia obrigatoriamente duas mulheres em cinco pessoas. Penso que actualmente a Guiné-Bissau tem a mulher mais livre desta costa de África, não é por acaso, vem daí.

Mesmo com todas estas confusões políticas?

Mesmo com estas confusões todas. A Guiné-Bissau não tem só coisas negativas, tem muitas positivas, algumas delas resultantes da luta e algum dia a Guiné-Bissau vai tirar proveito disso. Não estou pessimista. Vinte anos na história de um país não é nada. Ultrapassa-se.

Voltando à Guiné no período da guerra. Quando Spínola chega e adopta a chamada ‘guerra psicológica’ principalmente batendo na tecla da divisão étnica entre cabo-verdianos e guineenses, essa tensão sentia-se de facto? Ele descobriu uma brecha ou esta foi criada artificialmente?

Acho que as duas coisas. Efectivamente o General Spínola quando chega à Guiné trata de fazer uma anti-guerrilha moderna, algo que não acontecia com os seus predecessores. Até diria que os predecessores dele foram quase nossos aliados, tantas asneiras fizeram. O Spínola faz uma anti-guerrilha moderna que obviamente inclui a acção social. Foi nessa altura que a população da Guiné-Bissau, aquela que estava junto das autoridades portuguesas, começou a auferir de melhores cuidados de saúde, melhores escolas, etc. Era evidente que isso servia para se opor aquilo que o PAIGC fazia. É dos livros. As coisas entre guineenses e cabo-verdianos devem ser relativizadas. Vou dar-lhe o meu exemplo, estive em muitas unidades onde eu era o único não guineense e não preto e nunca tive o mínimo problema. Os problemas existiam mais em Conakry onde as pessoas estavam confrontadas com condições não muito fáceis de vida e cada um a querer alguma coisa. Quando há competição essas coisas vêm sempre ao de cima, até agora. Mas, acho que não é de dar muito significado. As pessoas falam muito nas contradições entre cabo-verdianos e guineenses, que terão estado na origem do assassinato de Amílcar Cabral, é tudo conversa para boi dormir, como diz o brasileiro.

Acha que isso não teve qualquer reflexo na morte de Amílcar Cabral?

Nada. Que os tipos que estavam a fazer o complot contra Amílcar Cabral e que acabaram por matá-lo e que queriam dar cabo do partido utilizaram isso, sim utilizaram. Mas, não creio que tenham tido grande sucesso com isso. Aliás, depois do assassinato de Cabral vê-se qual foi o desenvolvimento da luta.

 

Vamos lá chegar, mas na altura chegaram a aparecer no Voz di Povo relatos de perseguições brutais aos cabo-verdianos, no período que se seguiu ao assassinato de Cabral.

Onde?

No Voz di Povo, aqui em Cabo Verde.

Pergunto, quem foi morto ou espancado?

Estou a basear-me nas fontes da época.

Por acaso, eu não estava lá, quando Cabral é assassinado eu estava na União Soviética. Mas, há aqui muita gente que estava lá.

 

Acha que também se usou isso para fazer propaganda cá?

Eventualmente. Mas, isso é algo que é mais histórias da carochinha que outra coisa.

Voltamos então ao cenário de guerra. É no pós assassinato de Cabral que se dá o salto tecnológico na Guiné-Bissau…

O segundo salto. O primeiro foi a artilharia, depois foi as antiaéreas.

Com os mísseis Strella. É o momento de viragem?

Não diria viragem, diria progresso de uma mudança muito grande na nossa capacidade ofensiva e na negativa da capacidade ofensiva da tropa colonial.

O que representaram, no fundo, os Strella?

Representaram o acabar com os aviões e os helicópteros, essenciais na guerra de guerrilha.

 

Há analistas que defendem também que os Strella ajudaram a diminuir as tensões entre cabo-verdianos e guineenses porque para operar os mísseis era necessário pessoal mais bem formado e com conhecimentos, por exemplo, de matemática.

(risos) Havia um cabo-verdiano a operar em vinte e quatro, que era eu. Os outros eram todos guineenses.

Diz-se que foi Manuel dos Santos quem abateu o tenente-coronel Almeida Brito, a primeira vítima dos Strella.

Não fui eu. Quem o abateu chama-se Fodé Cassamá, guineense de Boé.

Cheguei a ler que se teria encontrado com a viúva do tenente-coronel Almeida Brito.

Não é verdade. Houve uma senhora, viúva de um oficial piloto que morreu na Guiné, que foi à Guiné porque pensou que o marido estivesse preso, mas ele tinha morrido e obviamente estive com ela e lamentei ter de lhe dizer que efectivamente o marido tinha morrido.

Em Lisboa, em 2010, durante o lançamento do livro A Última Missão [do coronel Moura Calheiros, que esteve na batalha de Guidaje] disse que era chegada a altura de falar desse período…

Sem problemas e sem complexos.

E acha que estamos a conseguir fazê-lo?

Não.

Porquê?

Há quem queira doirar as pílulas. Quando vejo aquele programa do Furtado na RTP [A Guerra, documentário sobre a guerra colonial da autoria e realização de Joaquim Furtado] às vezes riu-me. Até das contradições do próprio programa. O que se há-de fazer?

Mas há um doirar de pílula dos dois lados ou só de um?

Acho que é dos dois lados, porque falamos muito pouco disso. Para o programa do Furtado, por exemplo, fizeram-me uma entrevista de uma hora e depois passaram um minuto. Acho que estão a prestar um mau serviço, porque a guerra colonial faz parte da memória de todos nós e eu acho que os portugueses têm o direito de saber o que aquilo custou. E não custou pouco, sobretudo na Guiné.

Estamos a falar de todos os custos? Monetários e humanos?

Sim, sim. E ainda hoje há gente com o chamado stress pós-traumático, que não conseguiu a recuperação total. Portanto, acho que poderiam fazer melhor.

Do lado guineense e cabo-verdiano não falta também contar a história?

Falta, claro. Há muito pouca coisa escrita por guineenses e cabo-verdianos que participaram na luta na Guiné. Talvez seja por isso que se tente branquear tanta coisa.

E idolatrar outras?

Acho que do nosso lado nunca houve tanta tentativa de idolatrar gente. A não ser por algumas pessoas Amílcar Cabral. Mas, mesmo isso, se Amílcar Cabral estivesse vivo não ficaria contente.

Em 1973 fazia parte do Conselho Superior de Luta. Hoje não faz parte da lista dos comandantes aqui em Cabo Verde, que estavam  quase todos no Conselho Superior de Luta. Acha que devia estar nessa lista?

Acho que sim. Mas, isso é uma decisão que cabe ao governo de Cabo Verde.

 

Porque acha que ficou de fora?

Porque não estava cá. Não creio que haja outras razões.

Aliás, em 73 é já conhecido na Guiné como comandante Manecas e está à frente do ataque ao quartel de Guileje. Foi o ‘momento Dien Bien Phu’ de Portugal [batalha travada entre o Vit Minh e o corpo expedicionário francês no Extremo Oriente, de 13 de Março a 7 de Maio de 1954, foi a última batalha da Guerra da Indochina]?

Não houve nada disso na Guiné. Houve uma acção extremamente importante [Guileje] contra o exército colonial, que já estava enfraquecido pela falta de aviões. Quando enfrentámos a tropa especial portuguesa estávamos em vantagem porque era o nosso território e eles não tinham a aviação a apoiar, não tinham hipótese. O Almeida Bruno [comandava as tropas portuguesas na altura] disse uma data de asneiras, só que um oficial dele, um comando africano…

O Marcelino da Mata?

Não, era outro. Escreveu um livro também onde contradiz tudo o que o Almeida Bruno contou.

Por falar em Marcelino da Mata. Ele era tão bom soldado como ele próprio diz?

O Marcelino da Mata é um bandido, um criminoso, mais nada do que isso. As orelhas que ele tinha não eram de militares, eram de civis que ele matava [há descrições de soldados portugueses que Marcelino da Mata usava orelhas cortadas como troféu. Outros dizem que isso é mentira].

Não deixa de ser o militar português mais condecorado de sempre.

Pelas más razões.

O Marcelino da Mata afirmou que o PAIGC tinha morto a mulher dele e que fazia tudo por vingança.

Tenho as minhas dúvidas. Não creio que o PAIGC tenha feito coisas dessas. Não fazia. Pode acontecer que num ataque morra gente, morram civis, isso existe em todas as guerras. Agora, ir deliberadamente matar a família do Marcelino da Mata que, por sinal, é primo do primeiro Primeiro-Ministro da Guiné, acho duvidoso. Ele lá sabe as razões que o levaram a fazer aquelas coisas. Mas, não deixo de dizer que o Marcelino da Mata é uma vergonha para o exército português. Há poucos dias estava a falar dessa questão das tropas africanas com o comandante Pedro Pires e ele tem uma opinião com a qual estou inteiramente de acordo: foi o exército colonial que causou o problema dos comandos e da tropa portuguesa e que está na base do que eles sofreram depois da independência.

Mas o PAIGC garantiu que eles não sofreriam nada.

O PAIGC não garantiu coisa nenhuma.

 

Há jornais da época que dizem o contrário.

Isso são os jornais. Documento não há nenhum.

Eles foram convencidos a entregar as armas.

Eles entregavam as armas a bem ou a mal. Eu lembro-me até que na zona onde estava houve uma espécie de rebelião das milícias com os comandos africanos e um dia chega lá o comandante português todo alterado porque os comandos tinham recusado entregar as armas eu disse-lhe: ‘tire os portugueses daí e a gente vai buscar as armas’ e entregaram-nas imediatamente. Sabiam o que a casa gastava. Não estou a contar vantagem, era mesmo assim.

O assassinato dos comandos africanos não podia ter sido evitado?

Podia. Já agora, vou-lhe contar uma história que me foi contada pelo Nino Vieira numa altura em que ele não tinha interesse algum em branquear Luís Cabral. Presumo que seja verdadeira. Como sabe, Luís Cabral tinha boas relações com o Ramalho Eanes [oficial e ex-Presidente da República português], numa das passagens de Luís Cabral por Lisboa, o general Eanes pede-lhe que liberte os oficiais de comandos que estavam em Bissau, que lhe desse documentos para viajarem para Portugal. Luís Cabral concordou. Quando chega a Bissau chama gente do exército para lhes dizer para fazerem isso e o chefe da segurança diz-lhe que eles já estavam todos mortos. (pausa) Mas, a primeira culpa é do exército português que os deixou lá. Eles eram militares portugueses. Porque evacuaram todos e eles não? Porque não eram brancos.

Alguns foram evacuados.

Só o Marcelino da Mata. Mais nenhum.

As fontes portuguesas contam outra versão.

Não foram evacuados. Fugiram. O único que foi evacuado foi o Marcelino da Mata e havia razões mais do que suficientes para o fazerem.

 

Do que eu li, houve comandos que recusaram ir porque tinham várias mulheres e só deixavam levar uma.

Isso é treta.

O 25 de Abril começa na Guiné. Sentiram que era o início do fim do regime colonial?

Acho que houve alguns oficiais portugueses na Guiné – o Otelo [Saraiva de Carvalho], o Salgueiro Maia e outros – os homens que fizeram o 25 de Abril, que entenderam que aquilo não tinha solução. Ou por outra, a solução tinha de ser uma coisa negociada. O Spínola foi ter com o Marcello Caetano [o último Presidente do Conselho do Estado Novo], porque era suficientemente inteligente para saber que aquilo não tinha solução, e o Marcello recusa-se a negociar seja o que for. Obviamente, não há nenhum exército que queira perder uma guerra. Não sei se viu os documentários feito pelo José Manuel Saraiva, um sobre Guileje e outro sobre Medina do Bué…

Nunca vi.

Ele põe o general Monge a falar e ele diz uma coisa engraçada é que nessa altura não eram as tropas do PAIGC que estavam a construir defesas anti-tanque, era a tropa portuguesa.

Ou seja, estavam a passar para uma guerra defensiva.

Como é óbvio. Sem aviões o que podiam fazer? Toda a filosofia das tropas especiais numa guerra anti-guerrilha é baseada na existência de uma aviação eficiente, o que não era o caso.

 

Mas continuava a haver uma discrepância grande de forças no terreno: o PAIGC com pouco mais de 7 mil homens e o exército português com cerca de 35 mil.

Pois é, mas dos quais 90 por cento estavam acantonados em quartéis e não tinham operacionalidade nenhuma, ao passo que os nossos soldados eram todos operacionais. E havia uma diferença qualitativa: a tropa portuguesa, do serviço militar obrigatório, chegavam à Guiné e dois anos depois iam embora. Quando eles começavam a estar minimamente preparados para combater iam-se embora, enquanto nós tínhamos soldados com 6, 7 e 8 anos de guerra às costas, gente com uma experiência enorme de combate. Eram duas realidades diferentes. E nós não tínhamos de ocupar terreno nenhum.

De qualquer forma, quando se dá o 25 de Abril e terminam as hostilidades, pode-se dizer que havia cansaço das duas partes?

Havia. Nós todos queríamos acabar com aquilo. Mas, não tenho dúvidas também que a tropa portuguesa, por razões óbvias, estava mais cansada.

Ainda em 74 os primeiros combatentes cabo-verdianos começam a chegar ao arquipélago. Em 75 dá-se a independência e a democracia chega 15 anos depois. A transição podia ter acontecido mais cedo?

Teríamos de definir uma série de coisas e uma delas é se a democracia que foi importada da Europa serve ou não. Aqui em Cabo Verde, muito provavelmente serve. Na Guiné, acho que tem muitos pontos escuros. Não podemos esquecer que a Guiné é uma sociedade onde o tribalismo ainda estava presente. Uma sociedade onde a informação é escassa. Onde o índice de analfabetismo é alto. As pessoas vão votar porquê e para quê?

Porquê e para quê?

Essa é a pergunta que eu ponho. O Kumba foi eleito [Kumba Yalá, presidente da Guiné-Bissau de 2000 a 2003, quando foi deposto por um golpe militar], as pessoas não se perguntam porquê? Como é que um tipo daqueles chega e é eleito Presidente da República? É uma das interrogações que as pessoas podem legitimamente pôr. E a verdade é que a introdução de um sistema multipartidário contribuiu para um recrudescimento do tribalismo na Guiné.

Porque os partidos foram procurar apoios junto das tribos?

Obviamente. Isso não é novidade. O próprio Cabral disse que indivíduos destribalizados quando procuram o poder lembram-se que são balantas, ou fulas, para irem buscar as solidariedades.

Já que cita Cabral, eu perguntei sobre a democracia cabo-verdiana porque foi o mesmo Cabral quem disse que o homem africano devia ser livre de decidir por si próprio.

Deixe-me dizer-lhe outra coisa. Um dos problemas disto tudo é que a Europa e a América pensam que o que é bom para eles é bom para toda a gente. Ora, Amílcar Cabral era um indivíduo que dava uma importância enorme à participação das pessoas e essa é uma das pedras de toque da democracia – directa ou indirecta. (pausa) Não penso que fizemos as melhores coisas depois da independência e penso que podíamos ter feito muito melhor, mas considerar que a democracia representativa é uma panaceia que vem resolver todos os problemas… Basta ver os resultados.

Cabral é que disse que devemos andar pelos próprios pés.

De acordo com as nossas próprias realidades.

No livro de Humberto Cardoso “O Partido Único em Cabo Verde: Um Assalto à Esperança” levanta-se a dúvida se Manuel dos Santos tinha sido persuadido a ficar na Guiné ou se tinha sido impedido de regressar a Cabo Verde. O que aconteceu?

Nem uma coisa nem outra. Era um partido com as características que todos conhecem e quando termina a luta armada, no quadro da unidade Guiné/Cabo Verde, o partido ordenou-me que ficasse na Guiné, nem me perguntou a minha opinião. E eu fiquei. Não fiquei zangado, devo dizer, mas era assim. Fui a Angola também.

Onde participou na guerra civil ao lado do MPLA.

Não fui obrigado também, mas fui. É preciso ajuizar o comportamento das pessoas pela época em que elas viveram e tiveram determinado comportamento. Devo dizer que me sinto bem na Guiné. Estou como peixe na água. Sou o último que tem o estatuto das duas nacionalidades originárias, na Guiné sou guineense, em Cabo Verde sou cabo-verdiano. Nasci em Cabo Verde, mas tenho direito à nacionalidade originária por ter sido combatente e entendo que não devo perder essa qualidade.

A 14 de Novembro de 1980 dá-se o Golpe de Estado de Nino Vieira. Na altura, os autores do golpe preferiram falar em Movimento de Reajustamento, exactamente o que tinha sido dito em Cassacá. Foi uma manobra inteligente?

Há tempos estava a falar com um italiano e ele disse-me que os militares mais inteligentes do mundo são os guineenses: dão golpes de estado mas nunca assumem o poder e nunca dizem que foi um golpe de estado, dizem que foi outra coisa qualquer (risos).

Mas, quando tentam encobrir o golpe sob a cortina do reajustamento isto foi para quem? Para a comunidade internacional ou para o próprio PAIGC?

Acho que foi para todos. O PAIGC esteve na corda bamba, nessa altura, na Guiné.

E houve trocas de cartas bastante violentas entre Aristides Pereira e Nino Vieira.

Pois, mas o problema não está aí, está no interior. Houve um hiato de uns meses em que o PAIGC esteve… Mas, com a realização do Congresso voltou à normalidade em termos partidários.

Há analistas políticos guineenses que dizem que essa data significou a segunda morte de Cabral.

Não tenho essa opinião. Amílcar Cabral já foi morto uma data de vezes.

Na altura tornou-se também pública a insatisfação que havia em relação a Cabo Verde e aos cabo-verdianos, tanto mais que alguns regressam ao arquipélago. Você nunca regressou. Acha que era mais respeitado porque tinha sido um comandante de terreno.

Não foi por causa disso.

Pergunto-lhe isso porque o Osvaldo Lopes da Silva falou nos ‘comandantes de retaguarda’.

Ele era um deles (risos). Uns dias depois do 14 de Novembro eu estava cá. Vim falar com Pedro Pires e com o Presidente Aristides Pereira. Aristides Pereira já morreu, mas Pedro Pires pode confirmar isso.

De qualquer forma, acaba por regressar à Guiné.

Continuei a fazer parte do governo, nunca saí. Ok, eu sou respeitado na Guiné. Acha isso uma coisa má?

Não estou a fazer juízos de valor, estava apenas a tentar saber porque é que alguns vieram embora e você ficou.

Vou-lhe dizer outra coisa, o Nino, o João Bernardo Vieira, continuou a ter boas relações com todos os combatentes que estavam aqui em Cabo Verde. E quando o PAICV perdeu o poder até ajudou alguns.

Quer explicar melhor isso?

Não, não quero. Mas é a verdade. Sabe que Guiné e Cabo Verde têm uma ligação histórica e étnica muito grande. Você era capaz de imaginar que o Nino Vieira era de ascendência cabo-verdiana? A mãe dele chamava-se Florença de Pina Araújo, descendente de gente da ilha do Fogo, e o pai dele era dos Vieiras daqui de São Domingos e agora? E há outros, muitos mais.

Da parte do PAICV não houve nenhuma pressão sobre si porque ficou na Guiné?

Podia ter havido. Penso que se o camarada Aristides tivesse ido à Guiné naquela altura seria capaz de modificar muitas coisas. Mas, não foi. Se fosse Cabral tinha ido. Na hora.

Bem, o Nino Vieira era ligeiramente ameaçador nas suas cartas, não dava grandes garantias.

(silêncio) Eu sei do que estou a falar. Nino Vieira e Aristides Pereira continuaram a ter relações estreitas, sou testemunha disso, até da ajuda que Nino Vieira deu a Aristides Pereira quando o PAICV perdeu as eleições.

Os jornais cabo-verdianos, jornais oficiais do partido, da altura mostram outra coisa.

Espero que você, enquanto jornalista, não acredite em tudo o que dizem os jornais (risos).

Sabe certamente que se chegou a escrever nos jornais cabo-verdianos que Manuel dos Santos era a flor na lapela de Nino Vieira.

(risos) O que é que eu hei-de fazer? Éramos amigos sim e fomos amigos até ele morrer. Isto pode escrever, que eu assino por baixo. Mas, não mais do que isso. Nunca estivemos juntos em negócios. Éramos amigos e somente isso.

Em 91 Cabo Verde abre-se para a democracia. Na Guiné-Bissau a realidade tem sido outra, golpes, contra golpes, os próprios Estados Unidos da América consideraram a Guiné um narco-estado. Para que serviu a guerra de libertação afinal?

Serviu para mudar uma série de coisas na Guiné. Como estava a dizer-lhe há bocado, a Guiné não tem só coisas negativas. Há mais para além dos títulos e há pessoas.

Há hoje uma nova fase na Guiné?

Estamos a assistir à tomada do poder pelo actual Primeiro-Ministro, que é um homem que não pode ser acusado de ter estado na luta de libertação nacional, porque era muito pequeno, mas que é um individuo que viu que há muitas coisas boas na história da Guiné e que é preciso tirar proveito delas.

Os militares não voltarão às ruas?

Creio que não. Eles também já descobriram que o crime não compensa. Este Primeiro-Ministro merece ser ajudado.

De qualquer maneira, o sonho de Amílcar Cabral – de uma Guiné independente, democrática e desenvolvida – ainda está por cumprir 40 anos depois.

Amílcar Cabral não era sonhador, era um político avisado. Queria que a Guiné-Bissau fosse diferente daquilo que é hoje, não tenho dúvidas nenhumas, e penso que um dia vai ser. Cabral e aquilo que ele disse ainda está bem vivo e pode ser utilizado. Cabral não era um profeta, seria o primeiro a dizer que não era isso, mas as suas análises políticas ainda são actuais em muitos domínios.

E seria o primeiro a dizer que falhou em algumas situações?

Não creio. Assim como não considero que eu falhei. Se a direcção central for a correcta, mesmo que haja desvios, um dia chega-se lá. E é isso que Cabral representa: um dia chega-se lá.

Qual é o legado de Cabral?

Não espera que lhe responda a isso em dois minutos pois não?

 

Acha que o cabralismo é hoje recordado somente em certas datas?

O cabralismo é uma treta! Não acredito nessas histórias de cabralismos e outros ismos.

Há muitos camaradas que considerariam isso uma heresia.

Esses são os primeiros a violar as regras (risos). Aqueles que batem no peito? São os primeiros a violar as regras. Acho que Cabral é um homem cujo pensamento merece ser estudado, merece ser tido em conta. As análises dele, eu penso, ainda não foram ultrapassadas, pelo menos em África, naquilo que diz respeito à vida política dos países africanos. Cabral teve uma frase em que ele diz que a grande fraqueza dos movimentos políticos africanos era a sua falta de ideologia, ou seja, a sua falta de objectivos claros e concretos que condicionassem a sua actuação. Resumindo, o que ele queria dizer é que eles falavam uma série de tretas e depois faziam o que lhes apetecia. Não estamos muito longe disso.

Publicado originalmente em:

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/sociedade/item/43984-manecas-santos-amilcar-cabral-nao-era-sonhador-era-um-politico

 
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Publicado por em Fevereiro 20, 2017 em Plataforma Gueto

 

Site reúne obras de filósofos africanos

Em uma das disciplinas de filosofia da Universidade de Brasília (UnB), Aristóteles, Descartes e Nietzsche perdem espaço para nomes como Achille Mbembe, Mogobe Ramose e Cheikh Anta Diop. Ministrada por Wanderson Flor do Nascimento, a aula tem como objetivo trabalhar obras filosóficas africanas.

Ciente de que o material é de difícil acesso, o Wanderson resolveu, então, criar o site Filosofia Africana, em que disponibiliza gratuitamente mais de 30 livros escritos por escritores do continente e outras 40 obras que trabalham o tema.

“A reunião desses materiais passa pela coleta de textos e vídeos em veículos de pouco acesso pelas pessoas que trabalham na educação básica e, também, na tradução de materiais para uso didático, o que auxilia também na construção das aulas”, explicou o professor.

A pedido do Metrópoles, Wanderson selecionou cinco obras de cinco autores africanos que ele considera essenciais e fez uma breve explicação sobre elas.

Pluralidade
Incentivado pela Lei 10.639, que obriga o ensino de história e cultura africana nas escolas brasileiras, Wanderson pensou no site como uma estratégia de divulgação de material para professores de filosofia. “Nos falta conhecer o que se produziu e se produz nesse continente, tão marcado pelos danosos estereótipos racistas que se construíram no Ocidente”, afirmou.

Para o professor, as reflexões africanas se misturam à filosofia Ocidental e Oriental, com origens que remontam ao Egito na Antiguidade. Além disso, os autores do continente fez uma profunda pesquisa filosófica acerca das consequências geradas pelo colonialismo – que serviram diretamente à América Latina.

Essas buscas também ajuda a entender as nossas heranças africanas, tão constitutiva da maior parte das sociedades latino-americanas quanto às indígenas e às europeias

Wanderson Flor do Nascimento, professor

Além de inserir os autores do continente nas aulas de “Filosofia Africana”, Wanderson utiliza algumas das obras em disciplinas como “Introdução à Filosofia” e “Filosofia e Feminismo”. “A ideia é fazer com que os meus alunos criem o hábito de ler reflexões africanas junto com outras já comuns à Universidade”, concluiu.

Publicado originalmente no site Geledés

http://www.geledes.org.br/site-reune-obras-de-filosofos-africanos/#gs.w3gIVxs

 

 
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Publicado por em Fevereiro 20, 2017 em Plataforma Gueto

 

O caso do inspector das Finanças que não pagava a imigrantes que cuidavam da mãe

Contratava mulheres para cuidarem da mãe. Um dia mandava mensagem a dizer: “Está dispensada.” E não lhes pagava. Oito imigrantes denunciam o inspector ao PÚBLICO. O próprio admite não lhes ter pago. “Não tinham documentos, nem queriam celebrar contratos.” Mulheres desmentem.

Fotogaleria

Pouco tempo depois de começar a trabalhar em casa de António (nome fictício), Etelvina Pereira reparou que a colega estava com roupa nova. “Que bonita”, disse. Era a farda que uma das trabalhadoras anteriores tinha deixado lá em casa. Havia mais roupa “deixada para trás”: sapatos, T-shirts, mantas, guarda-chuvas. Percebeu mais tarde o que levou imigrantes que por lá passaram a não recuperarem as coisas que usavam — ora para cuidar da mãe, uma idosa acamada, ora para limpar a casa. Ao 17.º dia, recebeu uma SMS a dizer-lhe que não precisava de voltar.

A mensagem foi enviada por uma das empregadas de António, a pedido do próprio. Diria a Etelvina (ou Vina) que tinha sido proibida de lhe abrir a porta. “É aquilo que faz a todas. E as coisas ficam lá, não deixa irem buscá-las”, conta, semanas depois, num café dos subúrbios de Lisboa.

A promessa de ordenado eram 600 euros mensais pelo trabalho de segunda-feira a sábado, das 19h às 9h, mais o passe dos transportes públicos — que António lhe pagou no início. Devia-lhe, então, cerca de 300 euros.

Ao longo de vários meses de 2016, este inspector das Finanças em Lisboa terá explorado mais de uma dezena de mulheres. Pelo menos duas delas contabilizaram 13 trabalhadoras não pagas, todas imigrantes. O PÚBLICO falou com oito. Uma apresentou queixa à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). Nessa queixa, referem-se as 13 mulheres, acusa-se António de abuso de poder. Escreve-se que ele ameaçava que as denunciaria ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e que as acusaria de maltratarem a mãe, que terá 95 anos.

O próprio António, em entrevista, admitiu que não pagou a seis das mulheres que o PÚBLICO referiu. Alegou primeiro que “nenhuma dessas pessoas” lhe tinha apresentado “identificação”, que “não sabia o apelido delas”. “Estamos a falar supostamente de pessoas que existem”, disse. Depois de afirmar “não me recusei a pagar a ninguém”, confessou: “Não paguei. Porque nenhuma delas me apresentou os documentos de identificação, ou passaportes. E todas se recusaram a celebrar contrato escrito que é obrigatório.” Além de “terem demonstrado que não tinham competência para assistência à minha mãe”.

“Isso é mentira dele”, afirma Filipa (nome fictício). “Quantas vezes falei para ele: e o contrato? Precisava do contrato para autorização do SEF. E ele falava: para a semana.”

SMS a dispensar os serviços

A história que as várias ulheres contaram ao PÚBLICO repete-se. São todas imigrantes, a maioria brasileiras, várias sem autorização de residência legal. Todas dizem ter ficado a prestar serviço de cuidadora ou de limpeza, em média por duas semanas, umas mais e outras menos, até receberem uma mensagem a despedi-las, frequentemente a dizer que a “mãe” não se adaptou a elas. Seguia-se o pedido de um número de identificação bancária para transferência do dinheiro pelo serviço prestado, e depois disso silêncio total — e nada de pagamento.

Mensalmente, quatro pessoas trabalhavam para António, conta quem lá esteve: uma cuidadora de dia, uma empregada de limpeza, uma cuidadora de noite e uma cuidadora de fim-de-semana. “Havia rotatividade de 24h”, diz Hildy, que fez as noites durante 18 dias, algumas “virando”, ou seja, substituindo uma pessoa de dia que ele tinha mandado embora. Hildy diz que lhe foi oferecido um ordenado de 800 euros, mais passe e pequeno-almoço. A pedido de António, entregou-lhe passaporte e número de identificação fiscal. O horário era cansativo, mas ela precisava de emprego, é mãe de dois filhos. Do mesmo número de telemóvel que enviou mensagens semelhantes para mulheres que entrevistámos, lia-se, em letras maiúculas: “O seu trabalho acabou ontem não tem que vir hoje”.

O marido de Hildy, português, ainda contactou António — mas ele ficou “enrolando”, diz o marido. Numa das respostas de António por SMS, o próprio ameaça-a dizendo que vai consultar um advogado para saber se há “justa causa” para despedimento sem pagamento do salário. “Depois percebi por que é que ele não emprega portuguesas. Claro! Iam depor na justiça”, afirma Hildy que, apesar de não querer ser identificada pelo apelido, decidiu falar “para que ele não continue a fazer o mesmo”.

Eni Marques, brasileira, há 15 anos a viver em Portugal, e Vina, cabo-verdiana que vive em Portugal desde que tem um ano, encontram-se para tirar a fotografia para a reportagem. Não se conheciam, mas sabem da existência uma da outra. Trabalharam em períodos diferentes em casa de António. Vina interroga-se: “Como é que ele tem dinheiro para pagar a quatro pessoas? Não tem. Por isso é que ele fazia isto.”

Destemida, com 45 anos, Vina quer lutar pelos seus direitos. Quem trabalha, recebe, defende. Falam no apartamento dele, numa zona periférica de Lisboa, com garagem, dois quartos e uma sala, e sem muitos bens dentro de casa. Nunca António lhes solicitou documentos, nem sugeriu que fizessem contrato, acusam. Nem o apelido dela conhecia, diz Vina. “Como ele sabe o que vai acontecer no fim, não interessa saber muito sobre as pessoas”, diz.

Eni começou como cuidadora e passou a fazer limpeza. Seria dispensada ao fim de mais de um mês sem nunca lhe ter sido pago “um cêntimo” — apenas o passe. Concorda com Vina: “Ele já é tão mal-intencionado que quando uma pessoa vai para trabalhar ele nem pede nada. Diz que acredita nas pessoas que trabalham lá. Eu trabalho desde os 12 anos e nunca é assim em lugar nenhum. Trata-se de cuidar de uma pessoa que está acamada e é 100% dependente.” Isso ela estranhou. Também o acusa de assédio. “Virava para mim e falava do meu ‘corpão’”, conta.

Email para a IGF

No dia em que António a despediu, a 30 de Dezembro, Vina conta que foi bater-lhe à porta e o esperou no prédio. Decidiu enviar uma mensagem: “Boa noite, Sr. António, não sei o que aconteceu mas sei que disse [à empregada] para não me abrir a porta. Acho que mereço saber o que aconteceu para agir assim.” Ele respondeu: “Boa noite. Hoje enviei uma SMS a dizer que os seus serviços para cuidar da minha mãe tinham terminado esta noite e disse também para me enviar o NIB para transferir o dinheiro. Esta decisão mantém-se.” Até hoje Vina espera o salário. E que ele a contacte para o pagar, depois de o ter confrontado cara a cara sem sucesso.

Irina Antipina, russa, com nacionalidade portuguesa há dez anos, também diz que não tem medo. A morar no outro lado da ponte, na zona de Almada, demorava quase duas horas até casa de António, onde ficou cerca de duas semanas até receber a chamada a dizer que estava dispensada, conta. A rapidez com que foi contratada foi a rapidez com que foi despachada, relata. No dia da entrevista começou logo a trabalhar; ele pagou-lhe apenas o transporte. No fim, nem um cêntimo dos 300 euros que lhe devia pelas noites a cuidar da mãe, queixa-se.

Na altura, quando recebeu a chamada de António, ligou para a colega que ainda lá trabalhava, para ir buscar um envelope com o pagamento e as suas coisas. Recebeu a informação de que ele tinha dado ordens para não lhe abrirem a porta. “A minha cara ficou ‘pasma’”, conta. O marido de Irina entrou em acção, telefonou-lhe. António pediu o número de conta bancária — e a partir daí nunca mais respondeu a chamadas. “Ficou lá a minha roupa: as calças, a T-shirt, uma camisa e até os chinelos”, lembra.

O esforço que teve e os 300 euros que lhe ficou a dever — e muita falta faziam — motivaram-na a denunciar a situação para a Inspecção-Geral das Finanças, onde António trabalha. Não foi contactada por esta instituição, mas um dia ligaram-lhe do SEF para ir falar do seu caso, diz. Disseram-lhe que não tinha “conteúdo criminal” para seguir e que ela não era estrangeira, por isso aconselharam-na a ir ao Tribunal de Trabalho (TT). Na altura, chamaram ainda Filipa (nome fictício), que também tinha feito queixa e informaram-na que o caso seria enviado para o TT. Nunca mais souberam de nada. “Ele continua fazendo a mesma coisa e fica impune”, comenta Filipa que diz ter trabalhado em casa deste funcionário público durante quase três meses. No primeiro e segundo mês recebeu os 800 euros acordados pelo serviço das 10h às 20h; ao final do terceiro mês, António despediu-a sem lhe pagar os dias de trabalho. “Disse que não precisava mais e que tinha arranjado outra pessoa.” Contactado pelo PÚBLICO, o SEF disse que não pode prestar informações sobre processos em investigação.

Outra mulher com quem falámos (e pediu para não ser identificada) não quis “arrumar confusão” pelos 300 euros que ele lhe ficou a dever. Porque “a corda quebra sempre do lado mais fraco”, justificou.

Aos 47 anos, Sílvia Oliveira também andou a correr atrás de António para receber pelo que trabalhou durante cerca de uma semana a cuidar da mãe. Chegou a ir a casa dele. Bateu com o nariz na porta. Está disposta a depor contra ele. Mas o que parece acontecer com estas mulheres é que, a partir de determinada altura, mesmo as que querem lutar, não seguem em frente. Abrir um processo em tribunal não é fácil, exige tempo que muitas agora que trabalham não têm. “É um desgaste total, emocional”, diz Filipa.

Quando confrontado pelo PÚBLICO com o facto de tantas mulheres se queixarem de não lhes ter pago, António admitiu: “Sim. É natural. O que acha que deve ser um pagamento? Um pagamento ilegal, por baixo da mesa? Ou um pagamento a cumprir as obrigações fiscais e da segurança social?” E concluiu: “Todas elas ameaçaram ir para o tribunal. Se querem ir para tribunal, vão. Estamos num estado de direito. O tribunal é que vai dizer quem tem razão.”

Vina conclui: “Ele até podia não gostar do meu trabalho e mandar-me embora, tudo bem. Mas tem que pagar! Trabalhar para aquecer? Isso é exploração.”

Segundo a Organização Mundial do Trabalho, uma das formas de exploração laboral é a retenção do ordenado.

“As pessoas que não tenham medo. A justiça está do lado delas”

O trabalho doméstico obedece a um regime específico, através do decreto de lei 235/92, onde estão especificadas as tarefas a desempenhar. A de cuidadora corresponde à vigilância e assistência a idosos. Teresa Pargana, inspectora da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) – instituição que tem uma linha de atendimento para estes casos – clarifica que “o facto de não haver um contrato escrito não significa que não tenha sido celebrado: pode ser verbal”. E é-o a partir do momento em que se acordam horários e respectivo pagamento. Para haver contrato basta que “alguém desempenhe um conjunto de tarefas remuneradas sob autoridade” de outra pessoa. No caso de ser um trabalhador imigrante é preciso comunicar o contrato à ACT, mas há excepções para cidadãos de vários países como Brasil e Cabo Verde. A ACT não tem poder de ir fiscalizar uma habitação própria (apenas empresas) mas pode notificar o empregador que se arrisca ao pagamento de coimas (a multa pode ir dos 102 aos 5100 euros) ou a ser alvo de um processo de contra-ordenação. A ACT não tem dados sobre queixas de trabalhadoras domésticas, mas Teresa Pargana afirma que recebem sobretudo pedidos de esclarecimentos.

Embora não tenham dados, Timóteo Macedo, presidente da Solidariedade Imigrante (Solim), que tem quase 30 mil sócios, afirma que estes casos são comuns. O que aconselha as mulheres a fazerem é a participação ao Tribunal de Trabalho, com pedido de assistência jurídica gratuita para quem não pode pagar. O presidente da Solim diz que existe jurisprudência em relação a casos que envolvem imigrantes em situação irregular onde se faz a separação entre a situação jurídica do individuo em território nacional e a relação laboral com a entidade empregadora. “O que está em causa é a relação de trabalho e é ela que vai ser julgada”, afirma. Em muitos casos, o empregador chega a acordo e acaba por pagar ao trabalhador o montante em dívida, sem ir a tribunal. Aconselha que se faça um processo colectivo: quanto mais trabalhadores participaram, mais força terá a acusação. Este caso faz-lhe lembrar o que acontecia no final dos anos 1990 na construção civil em que os patrões faziam “chantagem” com os imigrantes sem documentos. “As pessoas que não tenham medo. A justiça está do lado delas”, afirma.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) diz “que o não pagamento de trabalhadores, em situação regular ou não, deve ser participado no âmbito da protecção laboral”. Se envolver tráfico de seres humanos e exploração ou angariação de mão-de-obra ilegal, a investigação pode ser atribuída ao SEF por determinação do Ministério Público que tem a tutela da acção penal.

 
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Publicado por em Fevereiro 13, 2017 em Plataforma Gueto

 

A Mesquita de Lisboa foi vandalizada esta madrugada

Segundo a Sic ” a mesquita de Lisboa foi vandalizada esta madrugada. A fachada foi manchada com tinta, que depois derramou para o chão e para uma parede. O incidente terá acontecido depois da meia-noite.Para o sheik Munir, este episódio representa o desrespeito por um lugar sagrado e “espera que seja um ato isolado”.O caso já está entrgre  das autoridades”

Publicado originalmente em http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-02-11-Mesquita-de-Lisboa-vandalizada-esta-madrugada

 
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Publicado por em Fevereiro 13, 2017 em Plataforma Gueto

 

Paternalismo e Fraternalismo

Carta a Maurice  Thorez.

Paternalismo e Fraternalismo De Aimé Césaire, Deputado da Martinica. Traduzida do Francês pela PLATAFORMA GUETO, do site http://lmsi.net/, Fevereiro de 2017

transferirAimé Césaire 1913 – 2008

Seria fácil para mim articular, tanto em relação ao Partido Comunista Francês como em relação ao Comunismo Internacional, tal como ele é patrocinado pela União Soviética, uma longa lista de queixas e desacordos. A colheita foi particularmente rica ultimamente, e as revelações de Khrushchev sobre Estaline são tais, que fizeram cair ou, pelo menos assim espero, todos aqueles que em qualquer grau que seja, participaram da ação Comunista, num abismo de estupor, de dor e vergonha.

    Sim, esses mortos, esses maltratados, esses torturados, nem as reabilitações póstumas, nem os funerais de estado ou discursos oficiais prevalecerão contra eles. Eles não são daqueles aos quais se possa conjurar o espectro por alguma frase mecânica.

    Agora os seus rostos aparecem implícitos na marca d’água, na polpa mesma do sistema, como a obsessão do nosso fracasso e da nossa humilhação.

    E, claro está, esta não é a atitude do Partido Comunista Francês, tal como foi definida no seu XIV Congresso, atitude essa que parece principalmente ter sido ditada pela preocupação derisória dos líderes de não perder a face, que terá permitido dissipar o desconforto e conseguido que cesse de ulcerar e sangrar no mais agudo das nossas consciências, uma ferida.

      Os fatos estão aí, maciços.

     Cito aleatoriamente: as indicações dadas por Khrushchev sobre os métodos de Estaline; a verdadeira natureza das relações  entre o poder do Estado e da classe trabalhadora em muitas das democracias populares, relações que nos fazem acreditar na existência nesses países de um verdadeiro capitalismo de estado explorando a classe trabalhadora, de modo  não muito diferente da forma como ele é utilizado com a classe trabalhadora nos países capitalistas; a conceção geralmente  aceite nos partidos comunistas de tipo estalinista das relações  entre estados e partidos irmãos, como testemunha a descarga de insultos despejados durante cinco anos sobre a Jugoslávia, culpada por ter afirmado o seu desejo de independência; a falta de sinais positivos indicando a vontade do Partido Comunista da Rússia e do Estado soviético em conceder a independência a outros partidos comunistas e outros estados socialistas; ou então, a falta de pressa dos partidos não russos, e particularmente o Partido Comunista Francês, para aproveitar esta oferta e afirmar a sua independência da Rússia; tudo isso nos permite dizer que – exceto para a Jugoslávia – em muitos países europeus e em nome do socialismo, as burocracias distantes do povo, as burocracias usurpadoras, das quais está agora provado que não existe nada a esperar, conseguiram a lamentável  maravilha de um pesadelo que a humanidade acalentou por muito tempo como um sonho: o socialismo.

     Quanto ao Partido Comunista francês, nós não pudemos evitar ser atingidos pela sua relutância em se envolver nos caminhos da desestalinização; a sua falta de vontade para condenar Estaline e os métodos que o levaram ao crime; a sua inalterável autossatisfação; a sua recusa de desistir por sua parte,  e no que lhe diz respeito, aos métodos antidemocráticos caros a Estaline; em suma, tudo isto nos autoriza a falar de um estalinismo francês que tem uma vida mais dura do que o próprio Estaline, e podemos conjeturar, teria produzido em França os mesmos efeitos catastróficos que na Rússia, se a chance tivesse permitido que ele chegasse  ao poder em França.

Como calar a nossa deceção, aqui?

É muito verdadeiro dizer que após o relatório Khrushchev, nós estremecemos de esperança.

     Esperávamos do Partido Comunista Francês uma autocrítica honesta; uma desconexão com o crime que o ilibasse; não uma negação, mas uma saída nova e solene; algo como o Partido Comunista fundado novamente … Em vez de Havre, nós não vimos mais do que a teimosia no erro; perseverança na mentira; afirmação absurda de nunca ter enganado; enfim, entre especialistas pontificando mais do que nunca, a incapacidade senil de libertar-se de si mesmos e se elevarem ao nível do acontecimento, e todos os truques infantis de um orgulho sacerdotal na baía.

O quê! Todos os partidos comunistas se mexem. Itália. Polónia. Hungria. China. E o partido francês, no meio do turbilhão geral, se contempla a ele próprio e se diz satisfeito. Eu nunca fui tão consciente de um tal atraso histórico que aflige um grande povo …

     Mas, por mais grave que seja esta queixa – e ela mesma suficiente, sendo bancarrota de um ideal e ilustração patética do falhanço de toda uma geração- eu quero adicionar uma série de considerações relativas à minha qualidade de homem de cor.

     Digamos numa palavra: que à luz dos acontecimentos (e reflexão feita sobre as práticas vergonhosas do antissemitismo que tiveram lugar e ainda ocorrem ao que tudo indica, em países que reivindicam o socialismo), eu adquiri a convicção de que os nossos caminhos e os do comunismo tal como é posto em prática, não se assemelham, pura e simplesmente; que eles não podem ser confundidos, pura e simplesmente.

    Um fato a meu ver capital, é este: que nós, os homens de cor, neste momento preciso da evolução histórica, tomamos, na nossa consciência, posse de todo o campo da nossa singularidade e que estamos prontos para assumir a todos os níveis e em todas as áreas, as responsabilidades que derivam dessa tomada de consciência.

Singularidade da nossa “situação no mundo” que não se assemelha a qualquer outra.

Singularidade dos nossos problemas que não podem ser reduzidos a nenhum outro problema.

Singularidade da nossa história, atravessada por avatares terríveis que pertencem apenas a ela.

Singularidade da nossa cultura que queremos viver de forma cada vez mais real.

    O que resulta disso, senão que os nossos caminhos em direção ao futuro, eu digo todos os nossos caminhos, tanto o caminho político como o cultural, não estão todos feitos; que eles estão por descobrir, e que os cuidados desta descoberta nos cabem apenas a nós? É o suficiente dizer que estamos confiantes de que as nossas questões, ou se se quiser, a questão colonial, não pode ser tratada como uma parte de um todo mais importante, uma parte com a qual os outros podem se comprometer, ou passar tal compromisso que lhes parecerá justo passar,  em relação  a uma situação geral que eles sozinhos irão apreciar.

      Aqui, é claro que me estou a referir à votação do Partido Comunista Francês na Argélia, votação pela qual o partido deu ao governo de Lacoste Guy Mollet plenos poderes à sua política no Norte de África – acontecimento sobre o qual não temos nenhuma garantia de que não possa ser renovado. Em todo o caso, é claro que a nossa luta, a luta dos povos coloniais contra o colonialismo, a luta dos povos de cor contra o racismo, é muito mais complexa – ou melhor, de uma natureza diferente que a luta dos ‘trabalhadores franceses contra o capitalismo francês, e não pode, de forma alguma, ser considerado uma parte, um fragmento dessa luta.

     Muitas vezes me perguntei se em sociedades como as nossas, rurais como elas são, sociedades de campesinato, onde a classe trabalhadora é mínima e onde, portanto, as classes médias têm significado político sem relação com a sua importância numérica real, as condições políticas e sociais permitiam no contexto atual, uma ação eficaz das organizações comunistas, agindo isoladamente (sobretudo organizações comunistas federadas ou  subservientes ao partido Comunista da metrópole) e se, em vez de rejeitar à priori e em nome de uma ideologia exclusiva, contudo homens honestos e fundamentalmente anticolonialistas, não havia lugar para procurar uma forma de organização tão grande e flexível quanto possível, uma forma de organização que daria mais  impulso ao grande número, em vez impor um regime autoritário a poucos. Uma forma de organização em que os marxistas não seriam afogados, mas onde eles iriam desempenhar o seu papel como fermento, inspiradores, e não aquele que agora eles desempenham objetivamente, de divisores das forças populares.

      O impasse em que nos encontramos hoje nas Antilhas, apesar dos nossos sucessos eleitorais, parece decidir a questão: Eu opto pelo mais amplo contra o mais estreito; pelo movimento que nos coloca lado a lado com os outros e contra aquele que nos deixa entre nós; por aquele que reúne as energias contra aquele que as divide em capelas, seitas, igrejas; por aquele que libera a energia criativa das massas contra aquele que a canaliza e finalmente a  esteriliza .

    Na Europa, a unidade das forças de esquerda está na ordem do dia; os pedaços desconexos do movimento progressista tendem a se reunir, e não há dúvida de que esse movimento de unidade seria irresistível se o lado dos partidos comunistas estalinistas, decidisse lançar ao mar todos os apetrechos de preconceitos, hábitos e métodos herdados de Estaline.

    Não há dúvida de que neste caso, toda razão,  melhor, qualquer pretexto para boicotar a unidade, seria removido àqueles que noutros partidos de esquerda não querem  a unidade, e por causa disso, os opositores da unidade encontrar-se-iam isolados e reduzidos à impotência.

     E então, como é que no nosso país, onde mais frequentemente, a divisão é artificial, e vinda do exterior,  conectada como ela é com as divisões europeias abusivamente transplantadas para as nossas políticas locais, como é que nós não decidiríamos sacrificar tudo, eu digo todo o secundário, para encontrar o essencial; esta unidade com os irmãos, com os camaradas, que é a fortaleza da nossa força e a garantia da nossa confiança no futuro.

     Além disso, aqui é a própria vida que decide. Basta ver o grande  ar de unidade que atravessa todos os países negros! Veja como aqui e ali, se refaz o tecido cortado! É essa experiência, a experiência duramente conquistada que nos ensinou que temos à nossa disposição apenas uma arma, uma única eficaz, apenas uma não lascada: a arma da unidade, arma anticolonialista reunindo todas as vontades, e que o tempo da nossa dispersão, adequando-se às clivagens dos partidos metropolitanos, é também o momento da nossa fraqueza e das nossas derrotas.

     Pessoalmente, eu acho que as pessoas negras são cheias de energia, de paixão, e que não lhes falta nem o vigor, nem imaginação, mas essas forças só podem murchar em organizações que não são as suas próprias, feitas para elas, feitas por elas, e para fins que só elas mesmas podem determinar e organizar.

Paternalismo e fraternalismo [1]

     Isto não é vontade de lutar sozinho, nem desprezo de qualquer aliança. É vontade de não confundir aliança e subordinação. Solidariedade e resignação. Ora, este é exatamente o ponto em que muitos aparentes defeitos que vemos em membros do Partido Comunista Francês nos ameaça: o seu assimilacionismo inveterado; o seu chauvinismo inconsciente; a sua convicção um tanto quanto primária – que eles partilham com a burguesia europeia – unilateral de superioridade do Ocidente; a sua crença de que a evolução como foi na Europa é a única possível; a única desejável; é aquela pela qual o mundo terá que ir; em suma, a sua crença raramente assumida, mas real, numa civilização com um C grande; num progresso com um P grande (prova da sua hostilidade é aquilo que eles chamam desdenhosamente “relativismo cultural”, defeitos que, naturalmente, culminam na tribo literária que sobre tudo e nada dogmatiza para o partido).

    Deve ser dito de passagem que os comunistas franceses estiveram numa boa escola. A de Estaline. Estaline é de fato aquele que introduziu no pensamento socialista, o conceito de povos “avançados” e povos “atrasados”. E se ele fala do dever das pessoas avançadas (neste caso, os Grandes-Russos) de ajudar os povos atrasados a diminuir o seu atraso, eu não sei se o paternalismo colonial proclama uma reivindicação diferente.

No caso de Estaline e seus seguidores, talvez não se trate de  paternalismo. Mas é certamente algo que se assemelha ao seu erro.

Inventemos a palavra: trata-se de “fraternalismo.”

    Porque trata-se de facto um irmão, um irmão mais velho que, imbuído da sua superioridade e certeza da sua experiência, que pega a sua mão (uma mão, infelizmente, às vezes de forma rude) para levá-lo pela estrada onde ele sabe encontrar a razão e o progresso.

Ora, isso é exatamente o que nós não queremos. O que nós não queremos.

     Queremos que as nossas sociedades se elevem a um maior grau de desenvolvimento, mas por si mesmas, através do crescimento interno, por necessidade interior, pelo progresso orgânico, sem que nada venha do exterior deformar esse crescimento, alterá-lo ou comprometê-lo.

    Sob estas condições, entendemos que não podemos dar a ninguém qualquer delegação de pensar por nós; delegação de olhar para nós; hoje nós não podemos aceitar que ninguém, nem mesmo o melhor dos amigos, fique forte para nós. Se o propósito de toda política progressista é dar um dia aos povos colonizados a sua liberdade, é necessário pelo menos que a ação quotidiana de partidos progressistas não entre em conflito com a finalidade pretendida, e não destrua todos os dias as bases, as bases organizacionais como as bases psicológicas dessa liberdade futura, que podem ser reduzidas a uma única premissa: o direito à iniciativa.

     Penso ter dito o suficiente para deixar claro que não é o marxismo ou o comunismo que eu nego, mas sim, que é a utilização que alguns têm dado ao marxismo e ao comunismo que eu desaprovo. O que eu quero é que o marxismo e o comunismo sejam postos ao serviço dos povos negros, e não os negros ao serviço do marxismo e do comunismo. Que a doutrina e o movimento sejam feitos para os homens, e não os homens para a doutrina ou movimento. E é claro que isso não é apenas válido para os comunistas. E se eu fosse cristão ou muçulmano, eu diria a mesma coisa. Nenhuma doutrina se aplica sem ser repensada por nós, repensada para nós, sem ser convertida a nós. Isto parece simples. No entanto, na prática, não é automático.

    E esta é uma verdadeira revolução coperniciana que deve ser imposta, tanto que está enraizada na Europa, em todos os partidos e em todas as áreas, desde a extrema direita à extrema esquerda, o hábito de fazer para nós, o hábito de dispor por nós, enfim, o hábito de nos negar esse direito à iniciativa do qual eu falei há pouco, e que é definitivamente o direito à personalidade.

Este é provavelmente o cerne da questão.

    Há um comunismo chinês. Sem conhecê-lo muito bem, eu tenho em relação a ele uma prenoção das mais favoráveis. E eu espero dele que ele não caia nos erros monstruosos que têm desfigurado o comunismo europeu. Mas também me interessaria, e muito mais, ver nascer e florescer a versão africana do comunismo. Ele nos ofereceria variantes provavelmente úteis, preciosas, originais, e as nossas velhas sabedorias ganhariam novas tonalidades, tenho a certeza, ou ele completaria bem os pontos da doutrina.

     Mas eu digo que nunca haverá um comunismo africano, malgaxe ou antilhês, uma vez que o comunismo francês acha mais conveniente impor a sua. Nunca haverá comunismo africano, malgaxe ou antilhês, pois o Partido Comunista Francês pensa os seus deveres para com os povos coloniais em termos de magistério a exercer, e mesmo o anticolonialismo dos comunistas franceses ainda carrega as cicatrizes do colonialismo que ele pretende combater. Ou, o que vai dar ao mesmo, não haverá comunismo próprio a todos os países coloniais dependentes da França, enquanto os escritórios da rua Saint Georges, os escritórios da secção colonial do Partido Comunista Francês, este perfeito durante o Ministério da rua de Oudinot, persistem em pensar nos nossos países como uma terra de missões ou territórios sob mandato. Para voltar ao nosso assunto, a época em que vivemos é o sinal de um duplo fracasso: um, óbvio há muito tempo, que é o do capitalismo. Mas também o outro, terrível, visto que por muito tempo nós consideramos socialismo aquilo que não era mais do que estalinismo. O resultado é que hoje o mundo está num beco sem saída.

Isso só pode significar uma coisa: não que não há maneira de sair, mas que chegou o momento de abandonar todos os velhos caminhos. Aqueles que conduziram à impostura, à tirania e ao crime.

Basta dizer que, por nossa parte, já não nos contentamos em assistir as políticas dos outros. Ao atropelo dos outros. Às combinações dos outros. Ao conserto das consciências ou à casuística dos outros.

A nossa hora chegou.

     E o que eu disse dos negros não é válido somente para os negros. Sim, tudo ainda pode ser salvo, tudo, até mesmo o pseudo  socialismo instalado aqui e ali na Europa por Estaline, desde que a iniciativa seja dada aos povos que até aqui apenas têm sofrido com ele; desde que o poder desça e se enraíze no povo, e eu não escondo que a fermentação que ocorre neste momento na Polónia, por exemplo, me enche de alegria e esperança.

Que me seja permitido qui, pensar especialmente no meu país infeliz: Martinica.

   Eu penso nele para constatar que o Partido Comunista Francês é totalmente incapaz de lhe oferecer qualquer perspetiva que não seja uma coisa utópica; o Partido Comunista Francês nunca se preocupou em oferecer-lhe algo diferente; ele nunca pensou em nós senão em função de uma estratégia global que permanece confusa.

      Eu penso nele, para constatar que o comunismo lhe fez um nó de corrente da assimilação no pescoço; que o comunismo lhe isolou na bacia do Caribe; ele  mergulhou o numa forma de gueto insular; ele acabou por cortá-lo dos outros países do Caribe, cuja experiência poderia ser ao mesmo tempo instrutiva e produtiva (porque eles têm os mesmos problemas que nós e o seu desenvolvimento democrático é impetuoso): que o comunismo, finalmente, conseguiu apartar-nos da África Negra, cuja evolução agora se desenha em sentido contrário à nossa. No entanto, esta África negra, a mãe da nossa cultura e nossa civilização caribenha, é dela que eu espero a regeneração das Antilhas, não da Europa, que só pode melhorar a nossa alienação, mas da África, a única que pode revitalizar, re-personalizar as Antilhas.

Eu sei. Em troca oferecem-nos solidariedade com o povo francês; com o proletariado francês, e através do comunismo, com o proletariado mundial. Eu não nego essas realidades. Mas eu não quero erguer estas solidariedades na metafísica. Não há aliados por direito divino. Existem aliados que o lugar, o momento e a natureza das coisas nos impõem. E se a aliança com o proletariado francês é exclusiva, se ela tende a nos fazer esquecer ou contrariar outras alianças necessárias e naturais, legítimas e fecundantes; se o comunismo destrói as nossas amizades mais vivificantes, aquelas que nos unem a África, então eu digo que o comunismo nos fez um péssimo serviço, ao fazer-nos trocar a Irmandade viva contra o que pode parecer das mais frias abstrações. Advirto para uma possível objeção. Provincianismo? Não. Eu não me enterro num particularismo estreito. Mas eu não vou tão pouco me perder num universalismo descarnado.

Há duas maneiras de se perder a si mesmo: através da segregação vedada no particular, ou pela diluição no ”universal”.

     A minha conceção do universal é a de um universal rico com todo o particular, rico com todos os particulares, aprofundamento e coexistência de todos os indivíduos. Então? Então, temos de ter a paciência de retomar o trabalho, a força para refazer o que foi desfeito; a força para inventar em vez de seguir; a força para “inventar” o nosso próprio caminho e desobstrui-lo de formas já feitas, formas petrificadas que o obstruem. Em suma, nós consideramos agora que temos o dever de unir os nossos esforços com os de todos os homens que amam a justiça e a verdade, para construir organizações que podem ajudar as pessoas negras de modo honesto e eficiente na sua luta para hoje e amanhã: luta pela justiça; luta pela cultura; luta pela dignidade e liberdade; organizações capazes, numa palavra, de prepará-las em todos os domínios, para assumirem de forma autónoma, as pesadas responsabilidades que a história agora coloca tão fortemente sob os seus ombros.

Nestas circunstâncias, eu agradeço que aceite a minha demissão de membro do Partido Comunista Francês.

Aimé Césaire, Paris, 24 de outubro de 1956

 

 
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Publicado por em Fevereiro 11, 2017 em Plataforma Gueto