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Homenagem da Plataforma Gueto à Mulher Negra

07 Out

   Nos próximos meses, a Plataforma Gueto vai prestar tributo à Mulher Negra, através da divulgação da biografia de uma Mulher Negra no início de cada mês. Tratar-se-á de figuras femininas importantes da história negro-africana, tanto dos tempos da antiguidade como figuras da atualidade, tendo todas em comum o fato de serem grandes exemplos de resistência, de luta pela liberdade, justiça, protagonismo feminino, e terem lutado e contribuído para o melhoramento da condição do/a/s negro-africano/a/s no mundo. O objetivo é não apenas homenagear essas mulheres, mas também incitar à reflexão sobre as lições que podemos tirar hoje sobre as suas ações, e utilizar isso de forma construtiva e revolucionária. Como forma de introdução, antes de expor a primeira biografia, apresentamos o texto “Reflexão sobre a Condição da Mulher Negra”.

 

Reflexão Sobre a Condição da Mulher Negra

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   Mulher Negra Africana. As palavras são largamente limitadas para descrevê-la em toda sua Magnificência, Pluralidade e Complexidade. Mas, humildemente, vamos fazer um esforço para em algumas palavras, dar uma ideia daquilo que ela é: Mãe da Humanidade e da Civilização, Entidade Primordial, Sagrada, Matriz, Exemplo Maior de Resistência e Resiliência, Base, Pilar da existência, da vida familiar e social dos africanos; Devidamente Adorada e Divinizada no passado pelos nossos ancestrais, antes da cristianização e islamização do continente africano. Modelo de Beleza, Amor, Inteligência, Força, Poder, Coragem, Respeito, Gratidão, Generosidade, Compaixão. Modelo enquanto Mãe, Irmã, Esposa, Filha, Guerreira, Líder, Educadora e Trabalhadora.

Mulher Negra pinterest

                                                                      Pinterest.com

 

   Contrariando todo esse Esplendor da Mulher Negra, subjacente à sua realidade existencial, está o fato dela ser alvo da mais extrema sujeição, objetificação e hipersexualização da história humana. Ela foi e tem sido objeto da mais intensa opressão e abuso, derivados de uma perceção errônea, injusta e racista da sua inferioridade pelos opressores. Resultado de vários séculos de dominação, os próprios homens negros se convenceram da inferioridade das mulheres negras, reproduzindo sobre elas, práticas opressoras antes exclusivas aos senhores de escravizados e colonialistas. A mulher negra, ela mesma internalizou um complexo de inferioridade, à força de ser brutalizada e bombardeada com avaliações negativas a seu respeito e atos discriminatórios sistemáticos.

   Portanto, falar de Mulher Negra, é falar dessas duas dimensões: uma que realça o seu papel único e primordial na história da humanidade, e outra que assenta no seu rebaixamento e opressão. Falar de Mulher Negra, é também falar de multiplicidade, seja em termos étnico-culturais, geográficos, classe, estatuto social etc. Mulher Negra pode significar aquela nascida na diáspora ou no continente africano. Pode significar a mulher dos povos Masai, Himba, Khoi Khoi ou a Mulher Negra das Caraíbas. Pode querer dizer Michelle Obama, Oprah Winfrey ou algumas milionárias da África . Mas, também pode querer dizer a Mulher Africana que limpa escadas de prédios e escritórios nas capitais europeias, que trabalha em restaurantes, lojas ou hotéis. Pode querer dizer aquelas negras que têm que limpar as fezes e urina das pessoas idosas brancas, em casas particulares ou lares de Idosos. Pode querer dizer aquelas que morrem afogadas nos mares, ao tentarem chegar à Europa, em embarcações sobrecarregadas de pessoas, sonhos e esperanças. Pode querer dizer jovens negras descendentes de africanos que nasceram na Europa, que têm curso superior, que são funcionárias públicas ou trabalhadoras no setor terciário. Pode querer dizer jovens negras descendentes de africanos com curso superior, mas que por morarem em bairros considerados sensíveis, e por serem negras, vêm-lhes negados postos de trabalho adequados à sua formação e competências. Pode também querer dizer jovens com pouca instrução escolar e no desemprego, ou com empregos que não vão além dos restaurantes de Mcdonald’s ou caixas de supermercados. O que terão todas essas categorias de mulheres negras em comum? Será apenas a cor da pele e a ascendência africana? Qual é a posição ontológica da mulher negra?

   Recentemente, vimos um vídeo no qual uma romancista negra de nacionalidade francesa, Marie Inaya Munza, afirma que é necessário abandonar os clichês relativos à mulher negra, como aquele que a retrata como trabalhando nas limpezas e outras atividades pouco valorizadas socialmente; como aquela mulher que “é agressiva, que fala gritando, que não é formada, que vem do gueto, que não é interessante ou que está sempre presa nas mesmas representações e rotina, estando associada à escravatura, ao trabalho forçado e doméstico etc”. Essa escritora diz que a mulher negra evoluiu, referindo-se às gerações que nasceram na Europa, as quais ela designa de afropeias, pois, hoje em dia, encontram-se mulheres negras a trabalhar nas mais diversas áreas, como administração, escritórios etc. O seu romance Black in the City (2017)[1] conta a história de uma heroína negra, Amanda Parks, que incarna essa nova geração de mulheres negras citadinas empreendedoras, que possuem uma dupla cultura ou múltiplas origens e identidades, tendo maiores oportunidades de mobilidade social, se comparada com as gerações anteriores. Estamos plenamente de acordo com a afirmação e iniciativas da autora, no sentido de neutralizar os clichês pejorativos concernentes às mulheres negras, que ainda prevalecem na sociedade.

   Contudo, queremos fazer duas observações que julgamos serem importantes, e que também nos servirão de trampolim para respondermos à questão que colocamos atrás sobre o que é que todos os tipos de mulheres negras que mencionamos têm em comum. A primeira observação, é que essa nova geração deve ter bastante cuidado para não reproduzir os mesmos estereótipos e preconceitos inferiorizantes, que a sociedade dominante demonstra em relação às mulheres negras que trabalham nas limpezas, que moram em áreas socialmente desfavorecidas etc. Assim, quando essa romancista afirma que a Mulher Negra evoluiu, é necessário saber o que é que essa evolução significa, concretamente. A tendência para as mulheres dessa geração moderna, de se considerarem (mesmo que inconscientemente) superiores às mulheres da geração das suas mães e avós é bastante real, devido ao fato de terem sido socializadas num quadro de primazia dos valores eurocêntricos.

   A segunda observação consiste no seguinte: é importante não limitar a possibilidade de evolução da mulher negra à sua integração nas sociedades europeias ou ocidentais. Isso, seja considerando evolução como querendo simplesmente dizer “mudança através do tempo”, ou como melhoramento, progresso “mudança de um estado simples para um outro mais complexo”, como é entendida na maior parte dos casos (sendo obviamente questionável, a compatibilidade entre o melhoramento da sua condição e sua “integração” nas sociedades europeias, a qual, a persistência atual da sua subalternidade põe em causa). Seja qual for a interpretação, a evolução da Mulher Negra não é um processo de sentido único. Embora Marie Munza explicite bem que ela trata do contexto europeu, mais especificamente do contexto francês, é importante ter este aspeto em mente. Evolução da Mulher Negra não é sinónimo de assimilação da cultura europeia, nem da sua simples incorporação em esferas sociais antes a ela inacessíveis.

   Agora vamos nos ocupar de responder à questão colocada acima, ou seja, o que é que as Mulheres Negras referidas têm em comum. Ora o que essas mulheres têm em comum é essencialmente o fato de serem racializadas e subalternas. Por racializadas, entendemos que elas são categorizadas com base nas suas características físicas, morfológicas e culturais, por um sistema opressivo cujas maiores manifestações foram a escravização dos negros pelos árabes e europeus, acrescido pelo colonialismo e processos atuais de dominação exercidos à escala mundial. Sistema esse, que pré-determina todos os papéis sociais que a mulher negra é suscetível de desempenhar. A racialização e subalternidade da Mulher Negra transcendem as diferenças culturais, geográficas e de condição económica, estando estabelecidas globalmente. Isto é algo que pretendemos deixar bem escuro. Nas condições atuais, por mais bem sucedida e rica que uma Mulher Negra seja, ou por mais afropeia que ela se julgue, ela não deixa de ser racializada e subalterna no contexto da sua relação com a supremacia branca. A Mulher Negra, tal como o homem negro, carece de soberania ontológica. Ela não tem o poder, nem a liberdade de determinar plenamente aquilo que ela é ou vai ser na vida ou no mundo.

  Para exemplificar como operam a racialização e subalternização da Mulher Negra, vamos pegar no caso de uma das mulheres negras mais ricas do Planeta: Oprah Winfrey. Oprah, é uma grande mulher, que apresenta muitos dos atributos positivos caracterizadores da Mulher Negra, que referimos anteriormente. Não obstante ter tido uma infância complicada, ela é uma mulher bem-sucedida, e integrada segundo os padrões ocidentais. Oprah possui uma fortuna avaliada em 4 bilhões de dólares. [2] Tendo sido a apresentadora de televisão mais famosa do mundo, atriz e empresária, vencedora de múltiplos prêmios Emmy pelo seu programa The Oprah Winfrey Show, o talk show com maior audiência na história da televisão norte-americana. É também uma influente crítica de livros, uma atriz indicada a um Óscar pelo filme A cor púrpura e editora da revista The Oprah Magazine. Segundo a revista Forbes, Winfrey foi eleita a mulher mais rica do ramo de entretenimento no mundo durante o século XX, uma das maiores filantropas de todos os tempos e a primeira mulher negra a ser incluída na lista de bilionários, em 2003. Em 2010, foi a única mulher a permanecer no topo da lista durante quatro anos. Perante um percurso tão brilhante, a questão que se coloca é: como é que uma pessoa com semelhante currículo e estatuto pode ser considerada subalterna?

A Mammy Moderna

   A Mammy é uma das mais conhecidas figuras caricaturais da Mulher Negra, desenvolvida no tempo da escravização dos negros no sul dos EUA, constituindo parte da imaginação nacional e popular americana, divulgada através da literatura, cinema, televisão e outros meios de comunicação. Ela é representada como sendo uma mulher de cor escura, gorda, baixa de altura, lábios grossos, ombros largos. Mammy é geralmente uma mulher disciplinada e obediente, feliz por servir os brancos, sendo de uma presença marcadamente alegre – sempre sorridente, ela frequentemente canta, conta histórias e piadas, enquanto trabalha. Ela é geralmente empregada pessoal da senhora branca, cozinheira, enfermeira, podendo desempenhar uma grande variedade de serviços sem ser compensada financeiramente. Ela é fortemente associada aos cuidados prestados às crianças brancas, primeiro enquanto escravizada, depois enquanto “mulher livre”, estando intimamente apegada a elas emocionalmente. Ela é considerada “parte da família”. Também de sublinhar a sua intensa devoção e submissão à família branca, as quais são reflexo da sua inferioridade[3]. As suas roupas são típicas de uma doméstica, marcadas por cores brilhantes, e incluindo lenço de cabeça e avental. Muitas vezes, Mammy designa o título, mas também o único nome atribuído a determinadas Mulheres Negras. Muitas mulheres negras que foram registadas com um nome usual, acabaram por ser chamadas simplesmente por Mammy, a ponto de as pessoas que as rodeavam não saberem o seu verdadeiro nome. Ela é descrita como sendo bruta, abusiva, violenta, agressiva com os seus filhos, contrastando com a sua dedicação, paciência e delicadeza que ela demonstra com as crianças brancas. Os seus próprios filhos geralmente são sujos e mal-educados, podendo no entanto, servir como companheiros de brincadeira das crianças brancas. A Mammy “exerce uma autoridade considerável dentro da casa da plantação e, consequentemente, mantém uma certa dose de respeito entre os escravos. Muitos escravos a consideram indigna de confiança por ela se identificar tão completamente com a cultura que os oprime”[4]. “Subordinação, nutrição e autossacrifício constante, eram esperados enquanto ela cumpria as suas obrigações domésticas” (Jewell, 1993).

   Um dos traços mais simbólicos da figura de Mammy é “o seu papel maternal”. Mammy é a base da assistência maternal tanto das famílias de escravizados quanto das famílias dos escravizadores. Sanders [5], diz que devido às teorias do essencialismo racial bastante difundidas no século XIX, as mulheres afroamericanas eram vistas como possuindo capacidades superiores inatas para cuidar das crianças brancas, comparativamente às mulheres brancas. Consequentemente, a Mammy surge muitas vezes como substituindo as mães brancas, tendo ao mesmo tempo uma relação ambígua com os seus próprios filhos. O estereótipo de Mammy era a principal maneira pela qual os americanos brancos olhavam para as mulheres negras desde o início do século XIX até a década de 1950. Entre as personagens mais famosas estão: a Tia Jemima, Hattie McDaniel em “Gone with the Wind” (1939), Nell Carter em “Gimme a Break” (1981-1987).     Muito depois da abolição oficial da escravatura dos negros, o estereótipo de Mammy continuou a colocar uma cara feliz na posição humilde das mulheres negras na sociedade, ajudando a tranquilizar os corações das pessoas brancas em todos os lugares. As mammys eram descritas como estando tão felizes em servir os brancos que, nos filmes americanos do início de 1900, são apresentadas a abdicar das riquezas e até mesmo da liberdade, de forma a poder continuar a servir “a família branca”. A Mammy é apenas uma entre muitas figuras caricaturais produzidas pelo racialismo doentio americano, visando negros e negras. Outros exemplos são: saphire, jezebel, uncle-tom, coon, etc…

   Se a figura de Mammy é em parte uma personagem fictícia, com características exageradas e estereotipadas projetadas pelo imaginário da sociedade americana branca dominante, por outro lado ela corresponde em alguns aspetos à condição real de muitas mulheres negras. Vários estudos demonstram que a imagem de Mammy tem consequências negativas no funcionamento psicológico das mulheres negras, nos seus hábitos alimentares e forma física (Neal and Wilson, 1989), (Boyd-Franklin, 1989), (Carolyn West, 1995). Não é raro entre as mulheres negras, que características como cor da pele acentuadamente escura e cabelo crespo, tipicamente associadas com a imagem de Mammy, sejam causa de vergonha e sentimentos de ausência de atratividade. As suas homólogas de cor mais clara, são frequentemente confrontadas com perguntas sobre as suas origens raciais, e se sentem culpadas devido às vantagens de que beneficiam devido aos seus traços físicos mais próximos dos brancos (Neal and Wilson, 1989). Por outro lado, “a imagem de Mammy continua a representar as condições económicas e de trabalho de muitas Mulheres Negras pobres” (Carolyn West, 1995, p.459).

   Voltando a Oprah Winfrey, é evidente que ela incarna a Mammy dos tempos modernos. Ela apresenta muitas das características da Mammy que referimos, embora seja rica, podendo sem dúvida ser considerada “o substituto emocional da feminilidade suburbana branca”. As semelhanças entre Oprah e a atriz Hattie McDaniel[6] são flagrantes. Entre os traços típicos da Mammy que podemos apontar na figura de Oprah, está a satisfação em dar assistência emocional aos brancos. Durante os 25 anos de apresentação do seu programa televisivo ela era uma espécie de canal, que permitia uma evacuação das emoções. Ter a assistência e amparo de Oprah é como ir ao psicólogo sem ter que pagar por isso. O público de Oprah era predominantemente feminino, branco e com mais de 55 anos. À escala nacional nos EUA 7,4 milhões de pessoas assistiam ao programa de Oprah diariamente – cerca de 2,6% dos lares americanos. Quatro por cento das mulheres americanas (cerca de 5,7 milhões) visionavam diariamente, em comparação com 1,2% dos homens (1,7 milhão de pessoas). No geral, 2% de todas as pessoas de 18 a 49 anos visionavam o programa de Oprah. O público de Oprah também é em geral, predominantemente branco: 5,9 milhões de brancos viam o programa, em comparação com 1,4 milhões de negros, sendo o seu impacto bastante reduzido entre a população hispânica – apenas cerca de 230.000 hispânicos visionavam o programa diariamente[7].

   A figura maternal que ela representa inscreve-se indubitavelmente na continuidade da função simbólica e real da Mammy da plantação. Trata-se de uma residente na casa da “plantação”, que neste caso devemos transpor para um espaço social mais amplo, a sociedade branca americana. Ela é uma negra que foi moldada para satisfazer os desígnios  dessa sociedade, representando a única mulher negra que uma boa parte das mulheres brancas encontra nas suas vidas. ”Oprah é provavelmente a única mulher negra tolerada na maioria das famílias brancas, e o fato de ela vir através da televisão torna muito mais fácil desfrutar da experiência de Mammy”[8]. A sociedade americana necessita de Mammys, numa relação que podemos classificar de “predatória”. Isso faz com que muitas mulheres negras de destaque (como Michelle Obama, por exemplo) sejam empurradas pela sociedade a assumir o papel de Mammy, das mais variadas formas. Elas assumem esse papel, em grande medida de forma inconsciente.

   A Oprah representa a exceção racial, a negra excecional, que venceu e que deve servir de modelo aos negros que pretendem ascender socialmente, sendo ao mesmo tempo uma espécie de embaixadora entre o mundo branco e o mundo negro. Enquanto para os brancos o sucesso é uma condição natural, “os negros são obrigados a navegar no espaço branco como condição da sua existência”[9], e com a exigência de não esquecer o seu lugar de negro. Um negro pode ser bilionário, mas ele será sempre um “negro”. Foi disso que Oprah foi lembrada por uma empregada branca de uma loja de marcas na Suíça, em 2013, quando ela quis comprar uma mala e a empregada, sem conhecer Oprah negou dar-lhe aquela que ela queria, por considerar que era demasiado cara para ela[10]. Não se trata aqui de desvalorizar ou rebaixar Oprah, ou de afirmar que tudo o que ela é se reduz à figura de Mammy, mas sim de situar sociologicamente o seu papel e função enquanto Mulher Negra na sociedade norte-americana.

Mammy e branca thegriot.com

Thegriot.com

 

Oprag Mammy

Aunt Jemmima pinterest.com

A Mammy mais famosa Jemima transformada em marca de panquecas

   A caricatura, a inferiorização, objetificação e a proliferação de estereótipos desumanizantes, tendo a mulher negra como alvo, não são uma exclusividade dos EUA. Trata-se de um fenómeno global, que se manifesta também nas Caraíbas, América latina e Europa. Falando do contexto português, quem pensa que a figura de Mammy e outras representações depreciativas da Mulher Negra estão distante da nossa realidade, engana-se redondamente. Basta pensarmos na personagem feminina mais famosa do comediante português Fernando Rocha: Matumbina. Matumbina representa a mulher negra que veio da África, como sendo selvagem, animal sexual, bruta, promíscua, e baixa moralmente. Nós, os negros e negras de Portugal, estamos tao bem domesticados, e temos o racismo de tal forma interiorizado, que nunca levamos a cabo qualquer oposição séria e firme a esse tipo de rebaixamento e desumanização. Até houve uma “atriz” negra que se disponibilizou para desempenhar o papel de Matumbina, dando espetáculos pelo país a fora, ajudando esse comediante a ganhar dinheiro e prestígio com base na degradação da imagem, do ser de homens e mulheres negros e ciganos. Para essa ”atriz”, ridicularizar-se enquanto mulher negra africana não é um problema. Trata-se pura e simplesmente de “divertir”, “entreter”, “trabalhar”, ganhando dinheiro e fama ao promover a sua própria inferiorização, o que era precisamente o móbil de Hatie McDaniel, e outros atores e atrizes afroamericanos impulsionados pelos Minstrel shows[11]. A partir da década de 1940, os papéis de subserviência que McDaniel e outros artistas afro-americanos desempenhavam, com frequência foram alvo de críticas fortes por parte de organizações como a NAACP. Em resposta às críticas da NAACP, McDaniel disse: “Eu prefiro representar o papel de uma empregada doméstica e ganhar 700 US $  por semana, do que ser uma por US $ 7”.

   No contexto português, personagens como Matumbina têm vida longa, isso se não forem imortais. A ridicularização a eles associados é perfeitamente normalizada na sociedade, os próprios negros se divertem com as piadas, distanciando-se da imagem dos personagens, criando um binarismo, pois Matumbina é sobretudo aquela negra que não está adaptada ao modo de vida europeu, “Matumba”, na linguagem corrente. Ela fala um dialeto e sotaque do português específicos, originários de Angola, por exemplo. Matumbina é a outra. A ela opõem-se as negras assimiladas, integradas na sociedade portuguesa, que falam um bom português e têm modos discretos e sofisticados, mais próximos da imagem de princesa branca, pura. As negras assimiladas podem assim se reconfortar, gozando com as Matumbas, que se encontram na base da escala hierárquica cujo topo é ocupado pelas brancas, que por sua vez se tranquilizam na sua identidade com a imagem caricatural das Negras em geral. A auto-humilhação associada a essas representações denunciam múltiplas patologias psíquicas, entre as quais a mais óbvia é a síndrome de Estocolmo, sendo um exemplo do racismo interiorizado. Segundo Suzanne Lipsky (2016) ,  o racismo internalizado “é a aceitação pessoal consciente ou inconsciente das visões, estereótipos e preconceitos racistas da sociedade dominante sobre o seu grupo étnico de pertença. Dá origem a padrões de pensamento, sentimento e comportamento que têm como resultado discriminar, minimizar, criticar, encontrar falhas, invalidar e odiar-se a si mesmo enquanto simultaneamente se valoriza a cultura dominante”.  ( http://www.rc.org/publications/journals/black_reemergence/br2/br2_5_sl.html , Suzanne Lipsky) .

 

 

 

Negra Brasil

Exemplo de objetificação e sexualização da Mulher Negra. O Ministério da Justiça brasileiro processou a Kirin, dona da marca Devassa, por causa de um anúncio que foi veiculado entre 2010 e 2011 e considerado abusivo. O anúncio traz uma ilustração de uma mulher negra com um vestido de gala com as costas abertas, junto à mensagem “É pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”. https://mundonegro.inf.br/tres-passos-para-diversidade-sincera-na-publicidade/

   Os meios de comunicação social são o principal veículo de difusão dos estereótipos concernentes à Mulher Negra. O site desacato.info (2017)[12]enumera alguns dos estereótipos mais correntes divulgados pelos Media. Entre eles, estão: o de “Negra Durona”. Em muitos filmes, telenovelas e situações do quotidiano, as mulheres negras costumam ser descritas como seres inabaláveis, com poderes sobre-humanos para aguentar todo o tipo de sofrimento imaginável. Esse é um estereótipo que tem sido usado durante séculos como justificação de todo tipo de violência e opressão contra elas, indo do trabalho forçado, ao uso do seu corpo como objeto de estudos. De referir aqui que a ginecologia moderna nasceu com base em experiências feitas com Mulheres Negras. James Marion Sims, considerado o pai da ginecologia, deve esse título devido aos métodos bárbaros que ele utilizou em mulheres escravizadas e que dispensavam anestesias. Ele levou a cabo uma série cirurgias experimentais em Mulheres Negras escravizadas que sofriam de fístulas vesicovaginais, para investigar e melhorar as técnicas de tratamento. Ele usou mulheres negras como cobaia durante 5 anos, sendo que numa destas mulheres, Sims procedeu a pelo menos 30 operações no mesmo sítio. Ele aperfeiçoou as suas técnicas com a experimentação em Mulheres Negras e só mais tarde, iniciou os procedimentos de cirurgia reparadora em mulheres brancas, com o uso de anestesia [13]. No Brasil, até hoje as mulheres negras são aquelas que recebem menos anestesia nos partos [14]. Esse estereótipo de “Durona” permite que as pessoas não se comovam com o sofrimento da Mulher Negra, pois, ela é aquela que “aguenta tudo”. Outros estereótipos bastante difundidos pelos meios de comunicação, além das já clássicas escravas e empregadas domésticas, são: “A Mulher Negra como amiga da protagonista branca”, da “negra sensual e fogosa”, e “confucionista”. O estereótipo da negra sensual, fogosa insaciável ou Jezabel, é integrante da hipersexualização da Mulher Negra que serve de justificação para todo o tipo de violência, e particularmente de cariz sexual. No Brasil, as Mulheres Negras têm três vezes mais probabilidade de serem violentadas sexualmente[15]. A taxa de homicídio de Mulheres Negras em 2016 foi de 5,3 em cada 100 mil negras e de 3,1 para mulheres brancas [16]. “De 2003 a 2013, o número de homicídios de brancas diminuiu de 1.747 vítimas para 1.576. Isso representa uma queda de 9,8% no total de homicídios do período. Já os homicídios de negras aumentam 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas”[17]. No resto do mundo, a situação não é muito diferente. A Mulher Negra é sistematicamente vítima de violência e homicídio pelo simples fato de ser negra. Vem-nos à memória, o caso de Sandra Bland nos EUA em 2015, selvaticamente assassinada. Mais perto de nós, tivemos recentemente o caso da agressão bárbara por um neo nazi de Nicol Quinayas no Porto [18]. E também o da agressão racista da atleta negra italiana Daisy Osakue, de origem nigeriana[19], assim como o caso da advogada negra brasileira Valéria dos Santos, barbaramente expulsa de um tribunal, enquanto ela se encontrava em pleno exercício das suas funções numa audiência. (https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/09/11/advogada-e-algemada-e-presa-durante-audiencia-em-juizado-em-duque-de-caxias.ghtml). Podíamos continuar aqui com muitos mais exemplos de formas de degradação, rebaixamento e dominação da Mulher Negra no mundo, cuja lista é infelizmente bastante longa.

   Podemos concluir que a Mulher Negra, onde quer que ela se localize, possui uma “substância ou essência comum”, que faz com que ela seja subalternizada e oprimida de forma sistémica, global e multidimensional. Essa essência comum, consiste nas suas características genéticas e físicas, entre as quais a mais visível é a cor da pele, e num plano mais geral, as suas origens étnicas, culturais, e um passado marcado por séculos de opressão racial. Caso alguém pense em acusar-nos de essencialismo ou de termos uma visão demasiado redutora da identidade das Mulheres Negras, propomos a essa pessoa que nos explique o porquê de a Mulher Negra ser alvo de opressão, racismo e discriminação em todos os cantos do planeta terra, e de tratar de acabar com esse sistema opressivo, antes de nos acusar de seja o que for ou de criar um debate identitário. Vimos que a dominação da Mulher Negra é independente do seu país ou região de residência, da sua nacionalidade, profissão ou classe social. Mesmo as Negras que têm um elevado poder económico, têm que fazer face à humilhação e rebaixamento em termos sociais, psicológicos e morais. Tudo o que referimos deve servir para refletirmos seriamente sobre o que significa ser Mulher Negra no mundo de hoje, e sobretudo para tomarmos medidas concretas no sentido de restabelecer a sua imagem e dignidade.

Fontes Bibliográficas

Boyd-Franklin, N. (1989). Black families in therapy : A multisystems approach. New York : Guilford.

Boyd-Franklin, N. (1991). Recurrent themes in the treatment of African American women in group psychoteraphy. Women and Theraphy, 11 (2), 25-40

Neal, A. & Wilson, M. (1989). The role of skin color and features in the Black community: Implications for Black women in theraphy. Clinical Pshychology Review, 9, 323-333.

West, Carolyn. (1995). Mammy, Sapphire, and Jezebel: Historical images of Black women and their implications for psychotherapy. Psychotherapy Theory Research & Practice – University of Washington Tacoma. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/232579424

 

Notas:

[1] https://blackinthecityworld.com

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Oprah_Winfrey

[3] https://www.press.umich.edu/pdf/9780472116140-intro.pdf Mammy a century of race, gender and southern memory, Kimberly Wallace Sanders p.6

[4] https://www.press.umich.edu/pdf/9780472116140-intro.pdf Mammy a century of race, gender and southern memory, Kimberly Wallace Sanders p.6

[5] https://www.press.umich.edu/pdf/9780472116140-intro.pdf Mammy a century of race, gender and southern memory, Kimberly Wallace Sanders p.8

[6] https://en.wikipedia.org/wiki/Hattie_McDaniel

[7] http://stuffblackpeopledontlike.blogspot.com

[8] http://stuffblackpeopledontlike.blogspot.com/2011/05/oprahs-last-show.html

[9] “The White Space” Elijah Anderson, Sociology of Race and Ethnicity 2015, Vol. 1(1) 10–21 © American Sociological Association 2014

[10] https://www.theguardian.com/…/oprah-winfrey-swiss-apology-raci…

[11] black-face.com/minstrel-shows.htm

[12] http://desacato.info/8-estereotipos-de-mulheres-negras-que-a-midia-precisa-parar-de-usar/

[13] https://diariodebiologia.com

[14] https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,pretas-recebem-menos-anestesia-imp-,703837

[15] http://desacato.info/8-estereotipos-de-mulheres-negras-que-a-midia-precisa-parar-de-usar/

[16] https://www.cartacapital.com.br/diversidade/brasil-mata-71-mais-mulheres-negras-do-que-brancas

[17] https://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

[18] https://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-06-28

[19] https://www.efe.com/efe/brasil/esportes/atleta-italiana-negra-fica-ferida-ao-ser-agredida-com-ovada-no-olho/50000244-3706142 

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Publicado por em Outubro 7, 2018 em Plataforma Gueto

 

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