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Alma negra em pele branca (Bantu Steve Biko)

Alma Negra em Pele Branca?

Bantu Steve Biko

Em julho de 1970, no 1º Conselho-Geral os Estudantes da SASO, Barney Pityana sucedeu a Steve na Presidência. Steve foi eleito Coordenador das Comunicações SASO. No mês seguinte, o boletim mensal da organização começou a publicar artigos escritos por ele, com o título “Escrevo o que eu quero” (I write what I like) e assinados: Frank Talk. No julgamento da BPC-SASO, em certo momento o juiz perguntou:”O [acusado] nº 9 [Strini Modley] não é Frank Talk?”; e Steve respondeu: “Não, ele nunca foi Frank Talk, eu é que era Frank Talk”. Este artigo e o seguinte, que foram publicados no boletim nas edições de agosto e setembro de 1970, respectivamente, apresentam uma autentica exposição da filosofia da Consciência Negra.

A seguir está o primeiro de uma série de artigos com esse título, que apareceram regularmente em nosso boletim.

Escrevo o que eu quero

 

Alma negra em pele branca?

 

A comunidade branca na África do Sul é basicamente homogênea. É um grupo de pessoas acomodadas, que desfrutam de uma posição privilegiada que não merecem, que têm consciência disso, e que por essa razão passam todo o tempo tentando justificar porque são assim. Quando existem diferenças em suas opiniões políticas; mesmo essas tentam justificar sua posição privilegiada e sua usurpação do poder.

Com a teoria de “liberdade em separado para as várias nações dentro do estado multinacional da África do Sul”, o nacionalista fizeram muito no sentido de dar, à maioria branca da África do Sul uma espécie de fundamentação moral para o que ocorre. Todo mundo se satisfaz com a declaração de que “essa gente” – referindo-se aos negros – será libertada quando estiver pronta para dirigir seus próprios negócios em suas próprias áreas. O que mais poderiam querer?

Mas não é com “essa gente” que estamos preocupados. Nosso problema é aquele estranho grupo de não-conformistas que explicam sua participação em termos negativos: aquele grupo de pessoas bem-intencionadas, que tem uma porção de nomes: liberais, esquerdistas, etc. São os que alegam não serem responsáveis pelo racismo dos brancos e pela “atitude desumana do país em relação ao negro”. São as pessoas que declaram sentir a opressão com a mesma intensidade que os negros e que, por esse motivo, também deveriam se envolver na luta do negro por um lugar ao sol. Em resumo, são as pessoas que dizem que têm a alma negra, dentro de uma pele branca.

O papel do branco liberal na história do negro na África do Sul é bem curioso. A maioria das organizações negras estavam sob a direção de brancos. Fiéis à sua imagem, os brancos liberais sempre sabiam o que era bom para os negros e diziam isso a eles. O mais incrível é o fato de os negros terem acreditado neles durante tanto tempo. Foi só no fim da década de 50 que os negros começaram a exigir o direito de serem os seus próprios guardiões.

Sob nenhum aspecto a arrogância da ideologia liberal é mais evidente que na insistência em afirmar que os problemas do país só podem ser solucionados por uma abordagem bi-lateral, envolvendo tanto os negros quanto os brancos. De modo geral, tal posição é assumida com toda a seriedade como o modus operandi na África do Sul por todos aqueles que declaram que gostariam que houvesse uma mudança no status quo. Por esse motivo, vemos organizações e partidos políticos multirraciais e organizações estudantis “não raciais”, todos os quais insistem na integração não só como um objetivo final, mas também como um meio.

A integração de que falam é, em primeiro lugar, artificial, antes de tudo por resultar mais de uma manobra consciente do que de uma orientação profunda da alma. Em outras palavras, as pessoas que formam o organismo integrado foram extraídas de várias sociedades segregadas, com seus complexos de superioridade e de inferioridade introjetados, complexos que continuam a se manifestar mesmo na estrutura “não racial” do organismo integrado. Portanto, a integração assim obtidade é uma via de mão única, na qual os brancos são os únicos a falar, cabendo aos negros escutar. Apresso-me em dizer que não estou afirmando que a segregação é necessariamente a ordem natural; no entanto, uma vez que um grupo goza de privilégios à custa de outro, torna-se evidente que uma integração arranjada às pressas não pode ser a solução do problema. É o mesmo que esperar que o escravo trabalhe junto com o filho de seu dono para eliminar as condições que o levaram à escravidão.

Em segundo lugar, esse tipo de integração é um meio quase sempre improdutivo. Os participantes gastam muito tempo nas reuniões trocando insultos, tentando provar que A é mais liberal que B. Ou seja, a falta de uma base comum para uma identificação sólida se manifesta o tempo todo nas brigas internas do grupo.

A busca dos negros pela auto-afirmação, numa sociedade que os trata como eternas crianças menores de 16 anos, não deve parecer anacrônica a nenhuma pessoa verdadeiramente interessada numa integração real. Uma verdadeira integração não precisa de planejamento ou estímulo. Quando os vários grupos de uma comunidade se afirmam o suficiente para que haja respeito mútuo, temos então os pontos básicos para uma integração verdadeira e significativa. No coração da verdadeira integração se encontram os elementos para que cada pessoa e cada grupo cresçam e atinjam a idade almejada. É preciso que cada grupo seja capaz de alcançar seu estilo de vida próprio, sem invadir ou ser frustrado por outro. Do respeito mútuo e da total liberdade de autodeterminação com certeza surgirá uma genuína fusão dos estilos de vida distintos. Essa é a verdadeira integração.

Portanto, enquanto os negros estiverem sofrendo de um complexo de inferioridade – conseqüência de trezentos anos de deliberada opressão, desprezo e escárnio -, são inúteis como construtores de uma sociedade normal na qual a pessoa não seja nada mais do que um ser humano para o seu próprio bem. Assim, como prelúdio ao que quer que possa vir em seguida, é necessário estabelecer nas bases uma consciência negra tão forte que os negros possam aprender e se autoafirmar e a reivindicar os seus justos direitos.

Desse modo, ao adotar a linha de abordagem não racial, os liberais estão fazendo seu velho jogo. Reivindicam o “monopólio da inteligência e do julgamento moral” e estabelecem o padrão e o ritmo para a realização das aspirações do negro. Eles querem continuar a gozar da simpatia tanto do mundo dos negros como dos brancos. Querem se afastar de todo tipo de “extremismo”, condenando a “supremacia branca” por ser tão ruim quanto o “Poder Negro”! Oscilam entre dois mundos, verbalizando com perfeição as reclamações dos negros ao mesmo tempo em que extraem o que lhes convém do conjunto exclusivo de privilégios dos brancos. Mas basta pedir que apresentem um programa concreto e significativo que pretendam adotar, e veremos de que lado realmente estão. Seus protestos são dirigidos à consciência do branco; tudo o que fazem se destina a convencer o eleitorado branco de que o negro também é um ser humano e de que em algum momento no futuro deveria lhe ser dado o acesso à mesa do branco.

O mito da integração proposta pela ideologia liberal precisa ser derrubado e morto, pois ele possibilita que se acredite que algo está sendo feito. Na realidade, porém, os círculos artificialmente integrados são um soporífero para os negros e fornecem uma certa satisfação para os brancos de consciência culpada. Tal mito se baseia na falsa premissa de que, já que neste país é muito difícil reunir raças diferentes, então o simples fato de se conseguir essa reunião é em si mesmo um grande passo para a total libertação dos negros. Nada poderia ser mais irrelevante (Irrelevante, no original: termo usado na África do Sul para questionar não a boa intenção de instituições ou atividades, mas a sua eficácia em relação à realidade da opressão sofrida pelos negros. São freqüentes também as palavras “relevante” e “relevância”  neste contexto. N.T.) e portanto enganador. Os que acreditam nisso estão vivendo na ilusão.

Em primeiro lugar, os círculos de brancos e negros são quase sempre uma criação de brancos liberais. Como prova de que se acham completamente identificados com os negros, conforme alegam, eles convidam alguns negros “inteligentes e articulados” para “tomar um chá em casa”, ocasião em que todos os presentes se fazem a mesma velha e gasta pergunta: “Como podemos provocar mudanças na África do Sul?”. Quanto mais chás desse tipo alguém organizar, tanto mais liberal será e tanto mais livre se sentirá da culpa que perturba e amarra sua consciência. A partir de então esse alguém se moverá em seus círculos brancos – hóteis, praias, restaurantes e cinemas só para brancos – com a consciência menos pesada, achando que é diferente das outras pessoas. E, no entanto, no fundo de sua mente existe o constante pensamento de que tudo está muito bem para ele e que, por isso, não deveria se preocupar com mudanças. Embora não vote nos nacionalistas (já que, de qualquer jeito, agora são a maioria ), ele se sente seguro sob a proteção oferecida por eles e, inconscientemente, repele a idéia de mudança. Esse é o ponto que separa o liberal do mundo negro.

Os liberais encaram a opressão dos negros como um problema que precisa ser resolvido, algo que enfeia e estraga o panorama que, sem ela, seria muito bonito. De tempos em tempos eles se esquecem do problema ou deixam de olhar para o que enfeia a paisagem. Por outro lado, em sua opressão, os negros experimentam uma realidade da qual nunca conseguem escapar. Lutam para se livrar da situação e não apenas para resolver uma questão secundária, como é o caso dos liberais. Essa é a razão por que os negros falam com muito mais urgência que os brancos.

“Existe entre as pessoas, porque são seres humanos, uma solidariedade pela qual cada um é corresponsável por toda a injustiça e por todo o erro cometido no mundo, em especial pelos crimes cometidos em sua presença ou os que ele não pode ignorar.”

Essa descrição da “culpa metafísica” explica de modo adequado que o facismo branco “só é possível porque os brancos são indiferentes ao sofrimento e pacientes em relação à crueldade” com que as pessoas negras são tratadas. Em vez de empenharem todas as suas forças numa tentativa de eliminar o racismo de sua sociedade branca, os liberais desperdiçam muito tempo tentando provar ao maior número possível de negros que são liberais. Tal atitude provém da crença errônea de que estamos diante de um problema de negros. Não há nada de errado com os negros. O problema é o RACISMO BRANCO, e ele está bem no centro da sociedade branca. Quanto mais cedo os liberais perceberem isso, tanto melhor para nós, negros. A presença deles entre nós incomoda e serve para criar transtornos. Faz com que o foco de atenção seja desviado de pontos essenciais para conceitos filosóficos mal definidos, que ao mesmo tempo são irrelevantes para o negro e apenas servem para nos desviar do nosso rumo. Os brancos liberais precisam deixar que os negros cuidem dos próprios assuntos, enquanto eles devem se preocupar com o verdadeiro mal de nossa sociedade: o racismo branco.

Em segundo lugar, os círculos mistos de brancos e negros são círculos estáticos, sem direção nem programa. As mesmas perguntas são feitas e a mesma ingenuidade aparece nas respostas. A verdadeira preocupação do grupo é mantê-lo em funcionamento, mas que torná-lo útil. Nesse tipo de situação podemos ver um exemplo perfeito de como a opressão vem agindo sobre os negros. Fizeram com que eles se sentissem inferiores durante tanto tempo que se sentem consolados em beber chá, vinho ou cerveja com brancos que parecem tratá-los como iguais. Como consequência, têm o ego reforçado a tal ponto que se acham superiores aos outros negros que não recebem o mesmo tratamento dos brancos. É esse tipo de negro que constitui um perigo para a comunidade.

Em vez de se dirigirem aos irmãos negros e olharem seus problemas comuns a partir de uma plataforma única, preferem cantar seus lamentos para um auditório aparentemente simpático que se tornou perito em gritar em coro: “Que vergonha!”. Esses negros de inteligência obtusa, egocêntricos, são tão culpados pela falta de progresso quanto seus amigos brancos, pois é desse tipo de grupo que a teoria do gradualismo emana e é o que mantém os negros confusos, sempre à espera de que um dia Deus desça do céu para resolver seus problemas. São pessoas de grupos como esses que todos os dias lêem cuidadosamente o jornal, procurando por qualquer sinal de uma mudança pela qual esperam com paciência, sem fazer nada para que ela aconteça. Quando o número de votos obtidos por Helen Suzman cresce em alguns milhares, esse aumento é visto como um marco importante da “mudança inevitável”. Ninguém olha para o outro lado da moeda: a remoção de grandes contingentes de africanos das áreas urbanas, o zoneamento iminente de lugares como a Rua Grey, em Durban, e milhares de outras manifestações de mudança para pior.

Tais pontos de vista significam que sou contra a integração? Se pela integração se entende a penetração dos negros na sociedade branca, a assimilação e aceitação dos negros num conjunto de normas já estabelecido e num código de comportamento estatuído e mantido por brancos, então SIM, sou contra. Sou contra a estratificação da sociedade em superior-inferior, branco-negro, que faz do branco um professor perpétuo e do negro um aluno perpétuo (e um mau aluno, além do mais). Sou contra a arrogância intelectual dos brancos, que os faz acreditar que uma liderança branca é uma condição sine qua non neste país e que os brancos têm um mandato divino para imporem o ritmo deles ao progresso. Sou contra a imposição de todo um sistema de valores ao povo nativo por parte de uma minoria colonizadora.

Se, por outro lado, a integração significar que haverá uma participação livre de todos os membros de uma sociedade que, que haverá condições para a total expressão do ser em uma sociedade que se transforma livremente conforme a vontade do povo, então estou de acordo. Pois não se pode negar que, em qualquer sociedade, a cultura compartilhada pelo grupo majoritário deve determinar as grandes linhas da direção que a cultura conjunta dessa sociedade vai tomar. Isso não deve prejudicar os que sentem de modo diferente, mas, no conjunto, um país na África, onde a maioria do povo é africana, precisa inevitavelmente apresentar valores africanos e ser africano de verdade em seus costumes.

“E quanto à acusação de que os negros estão ficando racistas? Essa queixa é um dos passatempos favoritos de liberais frustrados que sentem que estão perdendo terreno na sua atuação como guias. Esses auto-nomeados guias dos interesses dos negros se vangloriam dos anos de experiência na luta pela defesa dos “direitos negros”. Eles vêm fazendo coisas para os negros, em favor dos negros e por causa dos negros,mas quando estes anunciam que chegou a hora de fazerem as coisas por eles mesmos, todos os liberais gritam como se fosse o fim do mundo! Ei, vocês não podem fazer isso! Você está sendo racista. Está caindo na armadilha deles.

Aparentemente está tudo bem com os liberais, desde que continuemos na armadilha deles.

As pessoas bem informadas definem o racismo como a discriminação praticada por um grupo contra outro, com o objetivo de dominar ou manter a dominação. Em outras palavras, não se pode ser racista a menos que se tenha o poder de dominar. Os negros estão apenas reagindo a uma situação na qual verificam que são objetos do racismo do branco. Estamos nessa situação por causa de nossa pele. Somos segregados coletivamente – o que pode ser mais lógico do que reagirmos em grupo? Quando os trabalhadores se reúnem sob os auspícios de um sindicato para lutar por melhores condições de vida, ninguém no mundo ocidental se surpreende. É o que todo mundo faz. Ninguém os acusa de terem tendências separatistas. Os professores travam suas próprias lutas, os lixeiros fazem o mesmo, e ninguém age como guia do outro. Mas, de algum modo, quando os negros querem agir por si, o sistema liberal parece encontrar nisso uma anomalia.           Na verdade, é uma contra-anomalia. A anomalia se encontra antes, quando os liberais são presunçosos o suficiente para achar que cabe a eles lutar pelos negros.O liberal precisa entender que o tempo do Bom Selvagem já passou, que os negros não precisam de um intermediário na luta pela própria emancipação. Nenhum liberal verdadeiro deveria se ressentir com o crescimento da consciência negra. Antes, todo liberal verdadeiro deveria perceber, que é dentro da sua sociedade branca que ele deve lutar por justiça. Se for realmente um liberal, tem de entender que ele também não passa de um oprimido, que, portanto, precisa lutar pela própria liberdade, e não pela liberdade daqueles vagos “eles” com quem, na verdade, não pode dizer que se identifica. O liberal deve se concentrar, com dedicação total, na idéia de ensinar a seus irmãos brancos, que num dado momento a história do país poderá ser reescrita e que poderemos viver “num país onde a cor não servia para colocar um homem num compartimento”. Os negros já ouviram muito sobre este assunto. Em outras palavras, o liberal precisa entender o papel de um lubrificante de modo que, quando mudarmos a marcha à procura de uma direção para a África do Sul, não se ouça o ruído dos metais em atrito, mas o som de um movimento livre e fluído de um veículo bem-cuidado.

 

“Alma negra em pele branca”, escrito por Bantu Steve Biko (Frank Talk), em agosto de 1970

 

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