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Damnés e a Ignorância-não-ignorante branca em Portugal

17 Jul

 

A reflexão que aqui apresento gira em torno de dois pontos relacionados com o presente debate público sobre o passado colonial de Portugal e as suas continuidades contemporâneas. Um debate que está a provocar bastante histeria e eclosão do chauvinismo e do nacionalismo pestilento, bem como a mobilização de uma estrutura de sentimentos baseadas na construção da diferença como antinomia, atrelado à ideia de pureza racial. O primeiro ponto deste texto abordará a questão da utilização da ignorância como evasão, por um lado. Servindo, por outro lado, de uma estratégia para tentar ilibar historicamente o passado colonial português, o que chamo de ignorância branca não ignorante. No segundo ponto, pretendo apresentar uma das razões da histeria do privilégio de uma certa intelligentsia branca e seus aliados.

No momento em que se discute a questão da memória, reparação histórica, (anti) racismo, descolonização, o termo que mais aparece durante o debate público é uma suposta ignorância. O conceito de ignorância tem sido usado, abusado de acordo com a conveniência de certas personalidades que não são neutras. Então perguntei a mim mesmo o que é a ignorância? E se houver uma ignorância-não-ignorante que sob a máscara da ignorância milita para perpetuar o estado «normal» da dominação racial? Depois perguntei-me o que está a provocar tanto incomodo assim neste debate supracitado?

Começo por dizer que certamente existem brancos que manifestam comportamentos racistas que são completamente ignorantes e inconscientes das suas próprias atitudes. É um tipo de ignorância que prevalece entre os brancos doxásticos[1], ou seja, a sua inconsciência é derivada da falta de informação que os leva a crer em certas mentiras oficiais. Então, a fim de evitar mal-entendidos, quero dizer que neste texto estou a debruçar-me sobre uma forma particular de ignorância: a ignorância branca não-ignorante. É uma ignorância historicamente produzida que vai sendo reproduzida e que jamais representou ou representa ausência de conhecimento em si, por isso, preserva a manutenção e perpetuação da dominação racial.

Assim, a ignorância entendida como falta de conhecimento, pode facilmente ser colmatada, em caso de boa-fé. Mas, a ignorância branca não-ignorante coabita muito bem com a existência da opressão racial em Portugal, o que significa a falta ou «desaprendizagem» de conhecimento anterior que é produzido com o objetivo de dominação e exploração». Daí que dá lugar a uma crítica racial na era contemporânea. É sabido que a ideologia de «color blind», (neo) luso-tropicalismo de Portugal desempenha um papel importante na manutenção da hegemonia branca neste país. Por isso mesmo, temos visto ao longo dos anos que, os vários relatórios internacionais, vozes de coletivos e associações e ativistas antirracistas que apontam Portugal como um país extremamente racista, são perentoriamente silenciados dentro desta lógica da ignorância branca não-ignorante. Este objetivo é alcançado através da instrumentalização de conceitos como a Color blind, a democracia racial (brasil), pós-racial (Estados Unidos) que carregam em si mesma a declaração da existência do racismo institucional. Ou seja, «somos racistas, mas temos vergonha», usando as palavras do filósofo Lewis Gordon.

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Parafraseando Charles Mill, a ignorância branca não-ignorante é uma ignorância que resiste e contra-ataca de forma agressiva, muito ativa, dinâmica, consistente, destemida e não pode, por isso, ser circunscrita apenas ao inculto ou iletrado, por que inclusive se apresenta, desavergonhadamente, como conhecimento «científico»[2]. É uma ignorância que atua a partir dos centros de pesquisas, das universidades, dos tribunais, do parlamento, dos debates televisivos e não cansa de escrever artigos de opinião nos jornais e nas redes sociais. É uma ignorância que tem como membros da sua legião, nomeadamente os professores/as doutores/as e quiçá catedráticos/as, investigadores/as e diretores/as de centros de investigação e políticos. É a ignorância que milita pela manutenção da dominação racial existente em Portugal. Procurando, acima de tudo, conservar a ideia de pureza branca, ou seja, o mito da «pureza branca».

Esta procura de manter Portugal como uma nação pura, ou seja, branca, significa manter os negros e ciganos fora do imaginário coletivo de nação. Neste sentido, a ignorância-não-ignorante branca é uma ignorância que tem conhecimento, mas que ignora os factos históricos e trabalha no sacrifício do real, porque tem uma agenda política por detrás. É uma ignorância orquestrada e de má-fé no sentido existencialista – estar consciente do que se nega através da capacidade de mentir para si mesmo. A ignorância não-ignorante branca procura conservar o estado de não-racismo institucional com racismo institucional para manter-se nos lugares de poder. Em qualquer tipo de sociedades onde se pretende preservar certas narrativas históricas, então observa-se uma demanda pela reprodução de certas narrativas históricas criteriosamente selecionadas para a cristalização de uma certa imagem de si mesma e controlo da perceção. Isto torna mais relevante quando se trata de países que cometeram atrocidades, como é o caso de Portugal. Por exemplo, a questão da guerra de libertação em África é um passado que não passou e um assunto que foi transformado em tabu, substituído por outras narrativas doces e mais apetecíveis. Por isso, Aimé Césaire tem razão quando escreveu que «não nos livraremos facilmente dessas cabeças de homens, dessas orelhas cortadas, dessas casas queimadas, dessas invasões góticas, deste sangue fumegante, dessas cidades que se evaporam pelo fio da espada[3]». Cabeças e orelhas que eram apresentadas como trofeus de guerra. Nas sociedades onde persiste um passado histórico associado à colonização, as escolas, os livros, a toponímia, os discursos oficias e as estátuas, «a estátua do general que fez a conquista» funcionam através da interiorização dos discursos de normalização do embuste colonial. E os jovens, em particular, são convidados a validar o legado real, baseado numa visão não-real, escamoteando o passado que não passou e o seu impacto na contemporaneidade. Nota-se, por exemplo, que a Turquia não aceita o genocídio arménio e não ensina. A Alemanha, outro caso, só recentemente, começou a discutir o extermínio dos hereros da Namíbia, «o genocídio esquecido» de 1904. Por isso, quem conhece a história da colonização moderna europeia fica perplexo quando observa a estátua equestre de Leopold II, em Bruxelas – o Rei da Bélgica, que exterminou cerca de dez milhões de congoleses. O mesmo se pode dizer dos dois maiores centros comerciais de Lisboa – Vasco da Gama e Cristóvão Colombo – que sabemos perfeitamente os massacres que estes dois selvagens cometeram. São marcas do colonialismo assim como Portugal dos pequeninos[4].

Em Cabo Verde, pode-se ver as inúmeras ruas, praças, estátuas até vilas com nomes de colonizadores portugueses. E até houve uma universidade privada de Cabo Verde que atribuiu honoris causa a um ex-ministro do ultramar, Adriano Moreira, responsável pela reabertura do campo da morte do Tarrafal. Neste caso, os colonos nunca foram embora e a descolonização é um processo ainda por concluir. Também podemos ver que o hediondo crime de contrabando de pessoas africanas até hoje não foi reconhecido por muitos países e empresas que estiveram envolvidas nesta violência e desumanização. E uma das formas mais sedutoras de escapar esta dívida histórica consiste no autoengano que são elaboradas através de narrativas que acabam por ser ensinadas nas escolas, universidades e difundidas nos meios de comunicação. Nestes países, os jovens estudantes, intelectuais, artistas e outros desempenham um papel fundamental na manutenção ou rutura da narrativa dominante, porque qualquer mudança radical implica a inversão dos valores, embora isto não seja suficiente. Portugal, em particular, é daqueles países que gosta de se considerar como uma exceção: o único país que praticou uma colonização benevolente e uma sociedade sem racismo. No intuito de evitar alguns mal-entendidos, alerto, desde de já, que não partilho desta visão e que, na minha perspetiva, o denominador comum de todas as colonizações é a violência como se pode observar no que estado colonialista, sionista, racista de Israel está a fazer atualmente na palestina e contra os judeus negros, imigrantes africanos etc. Portugal gosta de se mergulhar nas águas sujas do autoengano propositado mentindo para si mesmo apelando à história: minta-me para que seu sinta «especial». Comporta que nem a bruxa do conto de fadas Branca de Neve que está acostumada a escutar que é a mais bela do mundo até o dia que escutou que não era. Ficou tão destroçada que começou a odiar a branca de neve e a trabalhar para eliminar a existência da branca de neve[5]. Portugal se acostumou a dormir a ouvir estórias de embalar dos heróis do mar e agora fica chocado por escutar que não descobriram nada, mas que encobriram crimes terríveis. E certos energúmenos, embriagados de embuste lusitano entraram em histeria e gritaram «voltem para vossa terra». Entendo-te, o sono do luso-tropicalismo foi interrompido.

O debate sobre a descolonização tem produzido muita histeria dos brancos e seus lacaios que dão respostas decadentes e iracionais. Há quem até usa da estratégia da acusação de racismo inverso, essencialismo, pós-modernismo, para mandar calar algumas vozes. Durante muito tempo estas terminologias não apareciam no debate público por que eram os brancos e os seus lambe-botas no monólogo que chamaram de debate. Sobre eles, mas sem eles, na esteira de Kwame Nimako. A resposta mais decadente é «voltam para vossa terra se estão incomodados com a nossa história, com a forma como são tratados». Voltar para onde? Aqui é a nossa terra, ainda não percebeste. Isso não é um argumento é um manifesto racista, fascistas, um pensamento monolítico que confirma o racismo que supostamente pretendia negar. É coisa mais estupida que se pode fazer. Tentar parecer racional sendo irracional. O que incomoda não é o assunto, mas são os/as Damnés que se posicionam como questionadores e questionadoras por que consideram que o espaço intelectual como espaço dos brancos. «Volta para tua terra» é pedir aos Damnés que não apareçam; que não participem; que caminhem como subservientes; que fiquem quietinhos no seu lugar de não-lugar. É também um pedido de silêncio, mas sabe-se que o silêncio é também uma mensagem e, como dizia Steve Biko, não há liberdade no silêncio. É isso que incomoda: o facto de que já não se pode declarar certas barbaridades sem ter respostas. Com isto, não quero dizer que a comunidade negra, em particular, era passiva. Pelo contrário, apenas tinham outras prioridades e circunstâncias. A ideia da versão única da histórica é a causa e bandeira de guerra de todos os fundamentalistas, inclusive os eurocêntricos, dizia Ramon Grosfoguel. Por fim quero perguntar o seguinte: O que acharam que iria acontecer quando a cortina de silêncio fosse rompida e os Damnés aparecessem como juízes e juízas? O que acham que vai acontecer quando liberais e os seus lacaios perderem o emprego de guia da luta antirracista? O que acham que vai acontecer quando os especialistas em pretos perderem os seus empregos de intérpretes/mediadores entre os «selvagens» e os «civilizados»? O que acham que vai acontecer quando os Damnés se juntarem a todos os deserdados e deserdadas do capitalismo racial para dar uma face mais humana ao mundo? Não sabemos quando vai haver a explosão, mas sabemos que ela é certa!

 

By Txuputin N’Kontau

 

Referências Bibliográficas

 

Araújo, Marta – Trump no Portugal dos Pequenitos. Publicado no Jorna Público no dia 31 de Março de 2018: https://www.publico.pt/2017/03/31/sociedade/opiniao/trump-no-portugal-dos-pequenitos-1767071

Césaire, Aimé (1973) Discours sur le colonialisme. Présence Africaine. Paris

Fanon, F. (1961). The Wretched of the Earth . New York : Grove Press.

Fanon, F. (1988). Black Skin, White Mask . Pluto Press.

Gordon, L. (2005). “Through the Zone of Nonbeing: A Reading of Black Skin, White Masks in Celebration of Fanon’s Eightieth Birthday”. The C.L.R. James Journal. 11, no. 1 in https://globalstudies.trinity.duke.edu/wpcontent/themes/cgsh/materials/WO/v1d3_LGordon.pdf.

Nimako, Kwame (2012) “About Them, But Without Them: Race and Ethnic Relations Studies in Dutch Universities. Human Architecture: Journal of the Sociology of Self-Knowledge: Vol. 10: Iss. 1, Article 6.

Maldonado-Torres, N. (2016), “Outline of Ten Theses on Coloniality and Decoloniality”. http://frantzfanonfoundationfondationfrantzfanon.com/article2360.html.

Mills, C. W. (2007). “White Ignorance” . In E. b. Tuana, Race and Epistemologies of Ignorance. State University of New York Press. P. 13-38.

[1] Ver Ver Mills, C. W. (2007). White Ignorance. In E. b. Tuana, Race and Epistemologies of Ignorance. State University of New York Press, pp. 13-38.

[2] Ver Mills, C. W. (2007). White Ignorance. In E. b. Tuana, Race and Epistemologies of Ignorance. State University of New York Press, pp. 13-38.

[3] Césaire, Aimé (1973) Discours sur le colonialisme. Présence Africaine. Paris

[4] Ver Araújo, Marta – Trump no Portugal dos Pequenitos. Publicado no Jorna Público no dia 31 de Março de 2018: https://www.publico.pt/2017/03/31/sociedade/opiniao/trump-no-portugal-dos-pequenitos-1767071  

[5] Ver Gordon, Lewis (2005) – Through the Zone of Nonbeing: A Reading of Black Skin, White Masks in Celebration of Fanon’s Eightieth Birthday – The C.L.R. James Journal. 11, no. 1 in https://globalstudies.trinity.duke.edu/wpcontent/themes/cgsh/materials/WO/v1d3_LGordon.pdf

 

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Publicado por em Julho 17, 2018 em Plataforma Gueto

 

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