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O DEBATE RACIAL EM PORTUGAL: ENTRE A AFASIA E A DISSONÂNCIA COGNITIVA

17 Jun

Quase sempre quando participo em debates em que o tema é o racismo, observo que quando negros narram os ataques racistas vivenciados, os brancos entram em choque. Parece que é o fim do mundo. Entram em negações e mais negações. E muitas das vezes, o debate sobre o problema nem chega a acontecer. Isto é, muda-se de assunto e entra-se em “desvaneio”. Há um boicote de forma (in) direta. Isto aconteceu-me recorrentemente entre 2005 e 2010. Porém, ainda acontece com muita frequência. Podia até elencar uma longa lista de debates e situações que presenciei sobre este tipo de comportamento. No entanto, prefiro mencionar somente os temas em específico que geram tamanho desconforto: o direito automático à nacionalidade portuguesa aos filhos de imigrantes, nascidos em Portugal; a demolição dos bairros onde a população maioritariamente é negra e quase sempre as pessoas são desalojadas, tratadas como lixo, tal como está acontecer atualmente na Amadora; a criminalização da juventude negra portuguesa e imigrante; a questão do racismo no emprego; o silenciamento da violência da escravatura transatlântica e da violência colonial nos manuais escolares; ou ainda, os percursos curriculares alternativos que estão a amputar a nossa juventude; a medicalização das crianças negras consideradas “problemáticas” pelas escolas; o Lagartilho nas prisões e a morte de jovens negros nas prisões; as rusgas feitas pelo Serviço de Imigração e Fronteiras dento e na entrada dos bairros e também nas estações de metro e comboio; E, por último, a ausência da colheita de dados estatísticos com base na identidade racial. Contudo, o traço mais evidente desse comportamento negacionista da maioria dos brancos e de alguns Bounties é o tema da violência policial – a face mais visível do racismo em Portugal. A violência policial é uma epidemia que aumenta todos os dias nos chamados bairros “sociais” (um eufemismo né?).  Quando se fala disso publicamente, os brancos e os seus Bounties encaram o assunto como se fosse o fim do mundo. Alguns ficam perplexos. Gritando: Isso não acontece em Portugal! Não pode ser!  Nota-se esse tipo de atitude não só por parte dos indivíduos mas também por parte das instituições públicas e privadas, dos partidos políticos da esquerda à direita. E sobretudo das instituições do estado que, supostamente, deviam ter conhecimento desses problemas. sim, porque se dizem defensores dos imigrantes e os chamados minorias étnicas.

Há uns tempos, assisti um debate, por exemplo, em que um jovem de dezassete anos resolveu compartilhar o que lhe tinha sucedido. A maioria dos brancos perguntavam com desconfiança: mas o quê que tu fizeste para isso ter-te acontecido? A pessoa agredida explicou o acontecimento pormenor a pormenor. Isto é, não fez rigorosamente nada e foi literalmente torturada e humilhada. Mas, os negacionistas mostraram-se incrédulos diante dos factos. Por isso insistiram, atirando mais perguntas do género: tens a certeza de que não fizeste nada? Não fizeste nenhum gesto de agressividade? Não os respondeste mal? Não os mandaste palavrões? E houve até quem perguntou: Não estavas mal vestido? Pergunto-me, que é isso de estar mal-vestido? E o pior é que parece que nem sequer notam que estão a chamar a pessoa, automaticamente, de mentirosa. Será que é o velho mito colonial de que os negros são mentirosos profissionais? E a verdade é só aquela que sai da boca dos brancos, não é? Dizem-se todos bem-intencionados e se colocam moralmente superiores aos seus irmãos/irmãs racistas. Há, aliás, há uma certa esquerda que atribui o monopólio do racismo à direita, para mascarar o seu próprio racismo. Contudo, de vez em quando não conseguem se conter e soltam discursos que a extrema-direita aplaudiria. É estranho que os partidos que se dizem defensores dos negros não têm nenhum negro como deputado….  Voltando ao tema. Satisfeitos com as respostas, gritaram em coro: é uma vergonha!!! Mas, sendo negacionistas do racismo em Portugal, não vão desistir. Só não avançam mais além, porque já obtiveram respostas onde não têm como pegar. E também porque muitos não têm a coragem suficiente de afirmar frontalmente o que pensam à frente das vítimas. Então, passam a fase seguinte. Esta fase consiste na absolvição dos actos racistas da polícia. E novamente gritam em coro, desta vez: alguns deles são ignorantes; cresceram fora da cidade e se calhar nunca viram um negro; são mal formados, etc. Será que justifica? Não. A verdade é que os brancos têm-se beneficiado, ao longo dos tempos, do monopólio da ignorância para se desculparem do racismo. O mesmo se pode dizer da alegação dos problemas mentais para se justificar tais atrocidades. O homem branco que matou dezenas na Noruega não é terrorista, é um doente, né? Se fosse negro ou árabe seria logo chamado de terrorista. O terrorista nunca é um branco. Seguindo, por vezes, noto que há uns descarados que não desistem de tentar provar que a culpa é da vítima. Simplesmente recusam a aceitar às narrações das vítimas do racismo. E de repente, um se levanta e faz o mesmo tipo de pergunta à vítima. E você se pergunta, mas essa pessoa é surda? O debate é transformado numa espécie de interrogatório à vítima. Normalmente, são poucos que se preocupam com a questão de que os agentes envolvidos deveriam ser punidos. Lembro-me de um debate, em Lisboa, onde a pessoa que tinha contado o que lhe sucedeu quando foi abordada pela polícia, chegou ao ponto de gritar: porra, o único crime que eu cometi é o de ser negro. Será que tu és surdo ou estás parvo? Na plateia, ficaram escandalizados com o comportamento do jovem. E a “interrogador” disse: estão a ver como vocês são? Vocês?

Para mim, esta reação de alguns dos brancos não me surpreende. Não é nada de novo. Até porque, tenho observado esse tipo de comportamento nos juízes e juízas. Assisti isso em vários julgamentos sobre violência policial e processos afins. Posso dizer-vos que no caso do Élson Sanches “ Kuku”, na ocasião, quem foi julgado foi a vítima. Foi ele quem foi julgado pelo tribunal, em vez do agente que o matou. Isto pode ser aplicado como uma norma para a maioria dos casos de violência policial, que se traduziram em mortes de pessoas negras desarmadas. O caso do Eder é também outro caso paradigmático. A “patroa” dele afirmou perante ao tribunal que o Eder estava a trabalhar com ela no dia e na hora em que o crime foi cometido. Mesmo assim, o tribunal acabou por condenar o Eder. O jovem ficou preso, injustamente, durante anos. Há tantos casos semelhantes cá em Portugal. Mas, não seria exagerado também dizer que isto acontece quando se discute o passado colonial português, cujo racismo é produto. Uma pessoa cita várias fontes históricas que evidenciam a violência colonial, mas os negacionistas viram e gritam: Não era bem assim!!! Começam a divagar desonestamente, entrando em deambulações, procurando subterfúgios que justificam as suas crenças. Também não posso deixar de falar das comparações. Quando se procura debater a escravatura, o colonialismo ou o racismo em Portugal, nota-se uma explosão de comparações, com outros países europeus, sul-americanos, etc. Tais como: não há tanto racismo em Portugal como existe na Inglaterra, França, África do Sul, Brasil ou Estados Unidos. Os ingleses ou os Franceses foram piores colonizadores que nós. Há, ainda,  alguém que se lembra de dizer: não podemos esquecer dos espanhóis. Esses sim são piores que nós porque exterminaram os “índios”. Fala-se de tudo e menos do contexto português. Oh, não posso esquecer daqueles que nos consideram ingratos, por estar a falar do racismo. Muito menos daqueles que gritam: os negros são as pessoas mais racistas que já conheci. Upps! ( esses só nos comments do facebook) Meu caro, um bom livro sobre tema resolveria o teu problema.

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Posto tudo isso, parece que esses brancos sofrem de afasia e dissonância cognitiva. A primeira se refere a uma perturbação de linguagem, provocada por uma lesão cerebral que afecta vários aspectos de comunicação, nomeadamente a expressão oral, compressão de linguagem, leitura e escrita. A segunda, como nos ensinou o revolucionário Frantz Fanon, acontece em relação à estrutura cognitiva dos indivíduos, ou seja, às vezes, uma pessoa tem uma crença central que é muito forte. Quando ela é apresentada perante uma evidência tão clara que contraria esta crença central, a nova evidência não é levada em consideração. Isto cria um sentimento que é extremamente desconfortável, chamado de dissonância cognitiva. Torna-se tão importante proteger a crença central, que a pessoa racionaliza, ignora e até mesmo chega a negar qualquer coisa que não se encaixe na tal crença. Falo desses dois conceitos porque no que toca a questão do racismo, parece que os brancos têm problemas de compreensão sobre o tema. Parece que nem sequer escutam. Mesmo quando são confrontados com evidências irrefutáveis, continuam a negar o problema. Em Portugal, a ideia de que os portugueses nunca foram racistas está tão impregnada na sociedade que, quando são confrontados com a realidade das coisas, buscam justificar, racionalizar e ignorar os factos para preservarem a crença luso-tropicalista. É preciso manter a todo custo esse mito, mesmo que isso venha a ter grandes implicações no futuro. Aqui em Portugal, o debate racial tem sido pautado pela negação do problema. Em forma velada de perpetuação da estrutura. E na maioria das vezes, faz-se uma ode ao Gilberto Freire, como aconteceu recentemente no Teatro São Luiz, em que se homenageou à invenção da excecionalidade portuguesa em oposição a uma crítica justa sobre como o mito da harmonia racial perpetuou as injustiças sócio raciais. Por outras palavras, uma combinação de odes ao luso-tropicalismo e ao “bom” colonialismo dos portugueses, que se traduzem na negação do racismo. Não passam de grandes mitos, encobridores de perversidades extremas, criados pelos colonialistas portugueses e seus lacaios. Não há colonialismo bom. E não há como justifica-lo. O denominador comum de qualquer tipo de colonialismo (Britânico, Francês, Português, etc.) é a violência e predação. Não vou desperdiçar tempo sobre esse assunto. Há muita literatura sobre o tema. É procurar e ler. Hum, não posso esquecer que a coisa piora quando encontram um negro alienado para corroborar a tese da inexistência do racismo em Portugal. São simplesmente negros que sofrem de síndrome de Estocolmo. Mas eu não sou o teu negro!!! Afinal, primeiro, é preciso reconhecer o problema para poder combatê-lo. Entretanto, como se vai combater um problema, que não existe enquanto dado oficial?

 

 

Não Há Justiça, Não Há Paz

Plataforma Gueto

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Publicado por em Junho 17, 2017 em Plataforma Gueto

 

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