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Marcelismos Contemporâneos

17 Jun

Os políticos portugueses têm um compromisso com a sua História Nacional e não com a História Global, porque estes são parte activa de um grupo dominante e hegemónico. Assim, importa entender que a História Nacional acaba por ser, em grande medida, um refelexo do percurso das elites e dos acontecimentos heróicos que servem para sustentar a glória da nação. Por isso acaba por ser resultado de um cruzamento entre a realidade e a ficção, com base em fontes orais ou escritas.  No entanto, a História Nacional não deixa de navegar sempre ao sabor da narrativa do vencedor, ou a bem dizer, do grupo hegemónico que impõe ao Outro uma interpretação dos factos através de conceitos produzidos a partir de uma visão central do mundo.

Compreendendo este processo dialéctico da história, Karl Marx defendeu que no processo dialéctico entre o escravo e o senhor só seria possível superar este obstáculo existencial do escravo se este reclamasse o direito à sua história. Acabando por dar origem a uma luta de classes, porque o escravo terá, necessariamente, uma necessidade histórica de ascensão ao poder para ser o narrador da sua própria subjectividade. Deste modo, a história, enquanto instrumento de narração de factos e de eventos, acaba por reflectir exclusivamente os feitos do poder dominante ou dos grupos  detentores de poder numa determinada sociedade.

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Pois, pasmo-me com a reacção manifestada pela comunidade negra portuguesa aquando das declarações proferidas pelo representante oficial da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, na visita oficial a Gorée, no Senegal. Isto espelha que a comunidade negra estava à espera de uma atitude de reconhecimento das malfeitorias praticadas pelos portugueses durante o período do tráfico negro e depois dessa era. No entanto, esqueceu essa comunidade de observar que o sujeito em causa é parte integrante da elite que produz a visão nacionalista da História. Por isso, não sente a necessidade de recusar o seu próprio património histórico. Acabando por defendê-lo e legitimá-lo, através de uma visão nacionalista da História Global. Marcelo Rebelo de Sousa poderia até proferir um discurso mais elaborado e pomposo em termos retóricos, mas a sua substância manter-se-ia no sentido da preservação da visão nacionalista da História Global, elevando o papel dos personagens históricos portugueses.

Considerando a figura em questão não esperava outro comentário. Ainda assim, algumas pessoas entraram em choque por causa do teor das palavras proferidas em Gorée. Eu, ao contrário dos outros, teço um rasgado elogio pela transparência dos factos narrados à luz da versão nacionalista da História Portuguesa por parte do Presidente Português.

As reacções foram bastante negativas porque os negros cultivam o gosto pela versão doce, suave e cordial da História Global, quando efectivamente essa História é marcada pela desumanização e a rejeição do humanismo de uma parte significativa dos homens. Por isso a ausência de reconhecimento, por parte de Marcelo, dos maus-tratos infligidos aos negros por parte dos portugueses não devia afectar ninguém. Sei que é mais agradável lidar com um Senhor doce e amável, que não deixava de escravizar os seus negros enquanto bens ao seu dispor, do que com um rude e bruto jacobino. Esta é uma forma de vender o sofrimento através de filmes e novelas que suavizam o horror do sofrimento negro. Assim, uma comunidade que fica à espera de uma atitude do politicamente correcto, está, igualmente, a impedir uma postura simbolicamente mais significativa. Porque não basta reconhecer os crimes, sendo também necessário proceder a um suicídio de classe tal qual perspectiva Amílcar Cabral. Ou seja, não basta ser menos severo, é necessário lutar contra as injustiças.

A reacção às palavras do Presidente Marcelo até deu azo a um manifesto que marcou a indignação de um meio académico português e não só. Mas fica uma pergunta no ar: depois do manifesto, onde está a parte de transformar o meio social? A esterilidade dessa reacção por parte dos académicos fica comprovada ao analisarmos um Manual de História de Portugal, onde apenas está presente o lado dos vencedores, por exemplo, a História Colonial é ensinada com o objectivo de glorificar os Descobrimentos e endeusar os heróis nacionais, principalmente os seus efeitos. Mas o alcance moral dos actos praticados pelos portugueses em terras colonizadas está encoberto numa neblina de heroísmo nacionalista. Assim, a voz do sangue do negro cala-se, mais uma vez, e os dominados acabam silenciados.

Este texto visa na sua essência deixar claro que esperar o reconhecimento por parte do grupo dominante é recusar o direito à luta, ou seja, à sua própria subjectividade. Por exemplo, os negros nos EUA deixaram o blues, o lastro do sofrimento negro, de lado e enveredaram por uma luta pelos seus direitos e, com isto, são fazedores dos seus heróis e da sua própria narrativa histórica. Não faço nenhuma apologia ao distanciamento com os outros grupos, mas faço, abertamente, um apelo ao direito à auto-suficiência e não a uma concessão misericordiosa dos Marcelos da História. Para isto, deve começar-se por contar a história dos oprimidos e dos homens escravizados como forma de manchar a história com o sangue negro e não procurar o lugar na História através da visão do negro vencedor ou bem-sucedido porque essa é a fórmula de legitimar o vencedor. Talvez a revisão da História passe, necessariamente, pela abordagem aberta e directa da condição de não-condição a que um povo foi submetido e de todo o processo de superação histórica que envolveu e envolve, ainda hoje, vários problemas étnicos, raciais e morais. Assim, estudaríamos como um não negro (Não Ser) tornou-se um negro (Ser) e quais são ainda hoje as suas implicações sociais, históricas, económicas e filosóficas.

 

 

Não Há Justiça, Não Há Paz

Plataforma Gueto

 

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Publicado por em Junho 17, 2017 em Plataforma Gueto

 

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