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Tradução _ Ain´t I a Woman. Black Woman and Feminism”

10 Dez

Ser Mulher. Ser Negra. Ser Feminista. “Ain´t I a Woman. Black Woman and Feminism” de bell hooks

bell hooks (Gloria Watkins) nasceu em Kentucky nos Estados Unidos da América numa família com seis filhos (cinco raparigas e um rapaz) de educação sexista. Escolheu para si o nome bell hooks em memória à sua avó materna e por ser identificada com ela por ter “resposta na ponta da língua”. Intelectual negra, académica, licenciou-se em inglês pela Universidade de Standford e doutorou-se em literatura pela Universidade de California Santa Cruz. Já escreveu mais de trinta livros e com 19 anos escreveu o livro “Ain’t I a Woman” com o objetivo de documentar o impacto do sexismo no estatuto social das mulheres negras.

bell hooks mostra-nos como é importante para as mulheres negras terem voz na luta contra o sexismo. Por isso afirma no título do seu livro a voz do discurso de que no século XIX num encontro onde se discutia o direito ao voto para o povo negro, e se defendia esse direito apenas para exercício dos homens negros, pois as mulheres eram vistas como frágeis e incapazes de descer duma carruagem sozinhas. Perguntando repetidamente “ain’t I a woman”, Sojourner Truth se disse ser uma mulher ainda que trabalhasse e fosse castigada como um homem e que visse os seus filhos serem vendidos para serem escravos. Afirmando a especificidade da mulher negra, afirmou que não haveria mudança se apenas dessem o direito de voto aos homens negros.

Neste livro bell hooks demonstra com evidência como o feminismo negro nada tem a ver com o movimento feminista tal como é conhecido genericamente. bell hooks dedica muitas páginas atestando o racismo das mulheres brancas e o serviço que o movimento de mulheres brancas tem prestado a interesses oportunistas de procura de ganhos e privilégios a uma classe média e média-alta, que buscam essencialmente entrar no domínio político, económico e social dos homens brancos e do patriarcado.

O movimento feminista branco é visto por bell hooks como a luta das mulheres que querem fazer parte do poder que as domina e não a luta que pretende destruir o poder dominante. Estas mulheres são para bell hooks “mulheres que têm uma ideia escrava da liberdade – a forma de o dono viver é o seu ideal de liberdade e de vida”.

Em todo o livro é afirmado que a opressão sexista é uma ameaça real para nós, tal como a opressão racial. bell hooks interpreta criticamente a situação histórica do momento de luta pelo direito ao voto para o povo negro norte-americano, no qual as mulheres negras apoiaram o exercício de voto apenas para os homens negros. Para bell hooks, essas mulheres negras agiram apenas contra a opressão racial e nada fizeram contra a opressão sexista. No seu entender, tal dilema não deve existir na nossa luta política e devemos agir em conjunto contra uma e outra opressão.

bell hooks afirma também que ao naturalizarmos a condição de subjugação das mulheres negras em relação ao homem, ao aceitarmos o poder, o prestígio e as prerrogativas para os homens (o patriarcado), pomos em causa a nossa liberdade na condição de povo negro, pois de acordo com as suas palavras “não poderá haver liberdade dos homens negros enquanto eles defenderam a subjugação das mulheres negras”.

Esta constatação torna indissociável a luta contra a opressão do racismo da luta contra a opressão do sexismo, pois a libertação de um povo não pode ser feita de forma fragmentada. Se a luta contra o racismo exige união do povo negro e se o sexismo divide homens e mulheres negros em dominadores e submissos, uns e outras têm de se libertar de papéis sexistas e de se dominarem e serem dominados, para que unidos e livres possamos destruir o racismo que a todos condena.

Vendo os homens negros como opressores das mulheres negras, principalmente aqueles que lutam contra o racismo reclamando o direito à participação total na cidadania americana sem questionarem os valores dessa cultura (patriarcal, capitalistas e imperialista), bell hooks afirma que “o racismo separa os homens negros dos homens brancos e o sexismo une esses dois grupos”.

bell hooks afirma neste livro que os homens negros precisam de questionar o seu direito ao patriarcado e deixar de nos ver como subordinadas na esfera política e famíliar, não se mostrando superiores a nós e afirmar a violência como a sua primeira forma de uso de poder.

Para bell hooks a ideia de que as mulheres são inerentemente inferiores e que um ser humano pode dominar outro com base na sua condição sexual, é generalizada nos homens negros e foi reforçada pelo homem branco colonizador. Esta aliança ideológica patriarcal entre o homem branco e o homem negro, deve ser rompida pelos homens negros que lutam contra o racismo.

No que às mulheres negras diz respeito, bell hooks alerta para os mitos que foram criados para nos desvalorizar, pois o domínio não é possível sem a desvalorização, pelo que devemos recusar estas ideias generalizadas sobre nós.

O mito de que somos fortes, quando todas as outras mulheres são vítimas do homem inimigo (outro mito), faz com que soframos silenciosamente todas as opressões da nossa vida. A capacidade de aguentar o sofrimento não é força, é vitimização. Força seria se fossemos capazes de nos transformar ou de nos libertamos. Não devemos por isso ser fortes aguentando sozinhas a criação dos filhos, a exploração do trabalho, a violência racial e a violência masculina. Devemos ser fortes procurando lutar contra isso.

Outro mito criado sobre nós nos Estados Unidos da América é que somos sexualmente selvagens e más. Este mito legitimou a violação de mulheres negras durante a escravatura, a nossa exploração sexual após a emancipação e ainda justificou o menor número de relações inter-raciais entre nós e os homens brancos, comparativamente ao número de relações inter-raciais entre homens negros e mulheres brancas.

O mito da mulher negra matriarca e desmasculinizadora do homem negro, erra, na visão de bell hooks ao chamar de matriarca quem garante o papel de mãe e o sustento económico, tendo pouco ou nenhum poder político e social. bell hooks atribui a desmasculinização do homem negro não à mulher negra, mas ao racismo que o explora economicamente de tal forma que lhe fere a sua dignidade humana. Acusa como grande difusor deste mito Moynihan, que num relatório feito após a escravatura, caraterizava as famílias negras como disfuncionais devido à “excessiva afirmação” da mulher negra que conduzia à desmasculinação do homem negro. bell hooks justifica esta disfuncionalidade no sofrimento, na ausência de afeto e no quotidiano violento que sofremos na escravatura e que continuamos a sofrer após a emancipação.

Esta autora defende o feminismo como uma luta absolutamente necessária para nós, não para que exijamos ser igual aos homens (brancos) pois não pretendemos ter direitos à exploração económica e à dominação racial e imperialista, não pretendemos usar o poder que “nega a unidade, a conexão comum e é inerentemente diviso”; mas porque buscamos liberdade, ou seja, “a igualdade social que garante a todos a oportunidade de modelar o seu destino e só pode ser completa quando o nosso mundo não for mais racista e sexista”.

O feminismo é para bell hooks a luta que destrói a hierarquia sexual, racial e de classe na medida em que reconhece a união entre os sistemas de opressão e a necessidade de agir eficazmente entre estes, rompendo com os mecanismos que nos separam, que nos fazem competir ou dominar.

Tomar consciência e dizer-se feminista é insuficiente para se ser feminista. Ser feminista na visão de bell hooks é o ato de trabalhar conscientemente para nos conduzirmos para fora da socialização negativa. “Ser feminista é querer que todas as pessoas, femininas ou masculinas, se libertem dos padrões dos papéis sexistas, da dominação e da opressão”.

A Plataforma disponibiliza a tradução deste livro em português no site, na esperança de que mais do que dizermo-nos feministas, possamo-nos inspirar na sua leitura e agirmos unidos contra os sistemas que nos oprimem.

Clica aqui para descarregar  Não Sou eu uma Mulher_traduzido

 
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Publicado por em Dezembro 10, 2014 em Plataforma Gueto

 

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