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UMA MANIFESTAÇÃO NÃO É UM EVENTO

17 Set

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No passado 1º de maio a Plataforma Gueto organizou uma manifestação na qual  negras e negros marcharam unidos contra o racismo no trabalho,

Porque uma manifestação não é um evento, estamos a prosseguir a luta e a aprofundar o manifesto dessa marcha, identificando evidências do racismo nas nossas vidas de forma a conhecermos o impacto real desta opressão e delinearmos formas de resistência ajustadas à nossa realidade.

Iniciando a reflexão sobre esse manifesto a partir do seu primeiro parágrafo no qual se afirma que “negros e negras estão sobre-representados em setores como a limpeza, trabalho doméstico, a hotelaria, a restauração e a construção civil no mercado de trabalho cada vez mais racializado.”, mulheres unidas contra o racismo fizeram no passado domingo 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00 uma visita ao Centro Comercial Vasco da Gama, na cidade de Lisboa, uma zona considerada nobre, totalmente reabilitada para a Exposição Mundial de 1998.

Sobre este centro comercial importa referir que, tal como todas as grandes obras realizadas em Portugal, foi construído por mão-de-obra imigrante e principalmente negra. Para além disso, neste local existia um vasto núcleo de barracas onde residia uma população maioritariamente negra e imigrante, à qual além de ter sido feita a promessa de realojamento foi dito que os postos de trabalho criados nesse local também seriam para eles.

Importa relembrar que Vasco da Gama, nome atribuído ao Centro Comercial visitado, foi um dos mais prestigiados navegadores portugueses, comandante dos primeiros navios a navegar da Europa para a Índia, digno de lhe ser dedicada a obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões. Para os negros e negras apenas retemos deste navegador a pilhagem de especiarias, riquezas e conhecimento obtidos pela escravidão de outros povos e saque em terras alheias. A façanha que a história ocidental chama de descobrimentos é uma página triste na História das negras e dos negros.

O Centro Comercial Vasco da Gama tem 170 lojas e anuncia-se no seu site como acessível por transportes públicos ou por viaturas automóveis dispondo de 2 700 lugares de estacionamento. Afirma-se como um local com uma vasta oferta comercial e esplanadas com vista sobre o rio Tejo.

 No domingo 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00, identificámos 87 negras e negros trabalhadores nas 170 lojas deste Centro Comercial. Destas 87 pessoas negras trabalhadoras, 52 trabalhavam na área da restauração (60%), das quais 36 eram mulheres e 16 eram homens.

Na área da restauração 10 dos 52 trabalhadores negras e negros trabalhavam na cozinha, distantes do contato direto com o cliente (7 mulheres e 3 homens). Contabilizamos também 3 homens negros em funções de segurança em lojas, onde supostamente se considera maior a possibilidade de furto, e 2 mulheres negras na limpeza.

É um facto que estamos sub-representados atrás dos balcões de atendimento, porque a nossa cor de pele não serve o marketing do produto e do negócio. No site do Centro Comercial Vasco da Gama são indicadas 12 tipologias de lojas desde moda e acessórios, passando por telecomunicações, brinquedos, ouriversarias, entre outros. Na nossa observação visualizámos negras e negros a trabalhar essencialmente em 3 tipologias: Alimentação, Hipermercados e Cinemas.

 Neste início de missão de concretizar com dados as afirmações do manifesto que levámos à rua no passado 1º de maio, é-nos possível comprovar pela observação do Centro Comercial Vasco da Gama no dia 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00, que o racismo fez-nos construir um edifício comercial que emprega centenas de pessoas, das quais apenas 87 têm pele negra, estando 60% destes trabalhadores negros afetos à restauração, área de trabalho onde se praticam horários, salários e condições de trabalho precários e exploradores.

Confirmámos no período observado que os gestores e gestoras dos recursos humanos das lojas do Centro Comercial Vasco da Gama racializaram a contratação, ao visualizarmos apenas 82 pessoas negras a trabalhar nas suas 170 lojas, estando mais de metade destas pessoas na área da restauração.

Uma manifestação não é um evento. É uma ação coletiva e contínua. A nossa invisibilidade neste centro comercial dá voz às palavras de ordem dessa manifestação. No Centro Comercial Vasco da Gama somos afastados do balcão de atendimento pela mão racista do sistema deste país. Há racismo neste centro comercial quando nos destinaram durante meses a fio a sua construção, e depois de construído reservaram-nos os dias para servir na sua área de restauração e as noites e madrugadas para o limpar.

Como refere o manifesto da marcha contra o racismo no trabalho, negros e negras “constroem casas onde nunca poderão viver; limpam corredores de universidade que não poderão frequentar; cozinham em restaurantes onde não poderão comer; auxiliam em hospitais onde nunca serão atendidos; são lojistas em lojas onde são clientes indesejáveis; caixas em supermercado onde cada vez é mais difícil encher o carrinho de compras; cuidam dos filhos das patroas durante muito mais tempo do que alguma vez poderão cuidar dos seus.”

A luta contra a opressão racista não pode ser feita por episódios. Daremos continuidade à demonstração de que o racismo no trabalho existe em Portugal e que é premente denunciar e resistir ao seu silenciamento.

 Até lá deixamos o convite para a recolha de outras evidências e reflexões.

 
 

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