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Justiça? Só aquela que soubermos fazer.

27 Jun

Era o segundo aniversario da morte do Snake, passavam três meses da absolvição do policia que assassinou Kuku e morria outro jovem pobre dum bairro social, nas mãos da policia.

Desta vez em Setúbal na Bela Vista, um jovem branco, pobre dum bairro social. Na terra de ninguém onde os chamados Direitos Humanos não se aplicam porque as pessoas são vistas como bichos. Os selvagens que ainda pairam a memoria colonial. Como viria a escrever um irmão nosso (no dia da absolvição do assassino de Kuku): “os bichos começam a ter mais direitos nesta terra do que nós”. Verdade! Já vimos mais pessoas indignadas com a execução dum animal do que com a dum preto quando a indignação deveria ser a mesma (caso quisessem acusar-nos já de especiecismo).

A policia apressa-se a dizer que é apenas um acidente de viação e depois admite que os tiros podem ter assustado o jovem e causado o acidente, mas em nenhum momento admitirá que há mais um jovem morto pela policia de gatilho rápido. Policia que recorre cada vez mais ao gatilho pois sente-se progressivamente mais legitimada pela sistema judicial e pela opinião pública a fazê-lo. O que esperar de mais esta investigação que o IGAI abriu? Nada. Apenas que o caso caia no esquecimento (como já caiu para a maioria menos os seus pais que ainda ontem viram o seu outro filho ser espancado pelos mesmo policias), Que depois os responsáveis sejam absolvidos sem uma única mossa na sua carreira, ou seja,  que se sintam  premiados e incentivados a continuar este processo de disciplinarização  da população excedente contida nas sucatas sociais para abate.

Passam-se outros três meses morre Musso vitima da mesma violência. Tem 15 anos. Um ano mais que Kuku quando foi assassinado. Novamente, à semelhança do que aconteceu com os outros, procura-se vasculhar a vida do jovem e mostrar como era um “delinquente” e portanto legitimar a acção da policia. Os media cumprem o seu papel e assassinam o seu carácter. Alguns com tanto “excesso de zelo” quanto os policias  que dispararam armas de guerra automáticas para parar miúdos. Um desses casos é o Diário de Notícias que até já ganhou apelido de “Diário de Policias”. Uma Jornalista chamada Valentina é uma dessas grandes obreiras desses linchamentos na praça pública que antecipam ou sucedem os linchamentos físicos de negros no espaço público.

Desumanizam a vitima e humanizam o agressor. No caso do Kuku houve até um tal de Hernani, um jornalista que faz vida a girar de câmara com policias num programa copiado pela TVI do Cops do Canal Fox ( canal de propaganda racista dos EUA como canta Nas) que chegou a dizer que a culpa da morte era da mãe que deixou-o estar na rua àquela hora.

No dia que o filho duma tia de Cascais morrer em Santos será igualmente culpa da mãe? Ou aí haverá abuso como houve com os policias que agrediram um alemão em Lisboa e estão suspensos. O único caso em que a “justiça”  avançou até ao fim e condenou. Era branco, turista, estudante. O padrão é racial. Claramente racial, depois espacial, depois classista. Quanto mais rótulos destes juntares mais habilitado estas a ser o próximo fruto estranho[1].

O próprio advogado do assassino de Kuku disse isso, querendo ou não querendo. “O que faria você se visse um africano, àquelas horas, naquele sito com algo brilhante na mão, mesmo que não tivesse ângulo para distinguir entre umas chaves e uma arma? E o que faria você se visse um branco no mesmo local? Ruben era branco. O rapaz que morreu em Campolide era branco, varias agressões na região do Porto são dirigidas a brancos. “Brancos que se comportam como os pretos”, “que andam com os pretos”. É a memoria colonial outra vez. Obviamente todos os residentes dos caixotes do lixo sociais, a que a própria policia chama de ZUS, Zonas Urbanas Sensíveis (curiosamente lê-se zoos) estão sujeitos a esta disciplinarização pela força. No entanto das 17 mortes de jovens nas periferias de Lisboa, nos últimos anos 15 são negros.

Os mesmos que a hipocrisia da falta de estatísticas  com base na raça (que no entanto existem disfarçados tanto na policia como nos programas socais), não deixa visibilizar uma taxa de desemprego pelo menos o dobro do media nacional dos jovens e portanto a rondar 80%.

Esgotadas as imposições dos Subsídios de Desemprego, dos RSI’s, dos Territórios Escolares de Intervenção Prioritária dos Programas Escolhas, das Reinserções   Sociais e outras medidas se administração e controle da miséria impostas aos espaços pela tal mão invisível do mercado, sobra a mão bem visível do Estado: a força. O terror. Esgotado os soft-power da inclusão sobra o poder das armas e do confinamento social  deste projecto de supremacia branca nas suas varias colónias internas ou externas. Não estamos presos só quando passamos a ver o sol meia hora por dia. Estamos presos nas senzalas do Sec. XXI: os guetos.

Voltando aos media: A  mesma historia.  trata-se dum “criminoso” em acção e dum policia no “cumprimento do seu dever”. Um assassino que é constantemente transformado em herói. Presumimos então por ilação  directa que o seu dever é matar pretos. Os “outros” que os media a academia e os políticos têm construído como ameaça à civilização portuguesa.  Como inimigos dos “trabalhadores honestos” e “pagadores de impostos”, “nacionais”. Inimigos contra os quais se desenvolve uma guerra urbana. Um cerco. Um “search and destroy”. Um deslocação e isolamento obrigatório. Vejam-se os processos de “realojamento” cada vez mais feitos por exércitos em nada diferentes dos paramilitares que na América do Sul tomam a tiro as terras desde sempre habitadas pelos indígenas ou há muito por afro-descendentes. Os mesmos que no Brasil entram favela a favela com transmissão mundial para acalmar a FIFA o Comité Olímpico e os milhões de espectadores que se querem no Brasil em 2014 e 16.

É impossível esconder mais esta guerra pois as vitimas multiplicam-se e, este ano, em Portugal,  já são duas mortais. Mas são centenas de vitimas de agressões físicas nas esquadras nas ruas que depois são libertadas com lesões sem que haja visibilidade como teria acontecido a Musso caso não viesse a falecer. Há três semanas dois jovens do Monte da Caparica tinham sido agredidos na rua e levados para esquadra e novamente agredidos até sangrar e vomitar e obrigados a limpar o seu próprio sangue. Um, na ilusão de que o seu BI português poderia fazer diferença, ao exibi-lo recebeu uma chapada e ouviu “Ainda por cima és português preto do caralho”. No hospital sequer conseguimos um relatório como deve ser para apresentar queixa. Deram-nos uma folha que dizia apenas “agressão”. Disseram-nos que se quiséssemos algo mais detalhado teria de ser o tribunal a pedir. Tão bem montada que esta a burocracia para impedir que esta violência seja realmente criminalizada. Depois vem os CIDCR  (Comissão para a igualdade contra a discriminação Racial) dizer que há resultados no combate ao racismo. Confrontados com a pergunta de que resultados são esses,  primeiro ouvimos soluços e depois a resposta de que foram instaurados vários processos. Instaurados. E arquivados!

O IGAI – Inspecção Geral de Administração Interna (os policias que investigam policias) só mandam cartas de processo arquivado. Ninguém já quer instaurar um processo pois diz “ka ta da na nada”. Com razão. A única coisa que chama realmente a atenção para esta violência é a resposta dada quando algo arde. Como ardeu o autocarro na Arrentela. Como arderam os caixotes e o carro no 6 de Maio. Só interessa propriedade a essas pessoas. Só se lhes chama atenção quando se ameaça a sua propriedade. A única vez que os negros preocuparam as instituições dos brancos foi quando eram sua propriedade. Quando deixaram de o ser passaram a incómodo. Os negros passaram de “dóceis e árduos trabalhadores” a vagabundos  e perigosos. Assim que se aboliu a escravatura e que os negros deixaram de ser trabalhadores desejados, a não ser na prisões trabalhando forçosamente para grandes corporações ou para o estado, mudou-se a narrativa, nasceram as leis de vagabundagem nos E.U.A, no Brasil e sim, em Portugal.  Quando Marques de Pombal higienizou o centro de Lisboa mandando os pretos para o Alentejo. Pretos que na altura representavam entre 9 a 25% da população de Lisboa. Estas leis serviram para construir o ideário  do negro perigoso. O seu lugar tinha sido durante mais de três séculos nas zonas rurais dentro das senzalas e nos campos ou nas zonas urbanas nas cozinhas e cavalariças dos senhores. Agora que estavam livres e desempregados (desocupados para os técnicos do social) era necessário tratar deles pois estavam na cidade o dia inteiro a arranjar formas de sobreviver e sem corresponder a ideia de civilização que se queria. É nesse ideário que vivemos. Não é coincidência que os primeiros chefes de policia no Brasil “abolido” são os capitães de mato que caçavam  e chicoteavam o “nego fujão”. Que chefias de policias  daqui são ex-caçadores de selvagens terroristas numa guerra colonial acabada há 4 décadas. É isto que somos: “nego fujão”, ou jovens problemáticos, ou indígenas, ou terroristas, ou filhos de imigrantes ou o que mais a narrativa racista arranjar.

De resto esta violência racista e sistemática é tão normal que não é noticia. Tão aceite que depois dos dois dias de “Fuck da Police” nos beats e “RIP” nas t-shirts da nossa comunidade espera-se por mais um. Após dois dias de artigos reactivos da própria Plataforma Gueto sabe-se que haverá mais um. Após dois dias de aplausos e comentários racistas da extrema-direita  prepara-se mais um. Após  dois dias de comentários políticos e shares  instrumentais da esquerda sempre colocadas à luz do luta dos trabalhadores apela-se à solidariedade de classe para que não haja mais um! Como se a maioria dos trabalhadores a quem se pretende transmitir um sentimento de segurança não  fosse precisamente um dos grandes defensores deste genocídio. Como se um dos principais representantes desses trabalhadores não chamasse “escurinho” ao gajo do FMI. Como se o dinheiro dos capitalistas pretos de Angola não incomodasse mais do que o dinheiro dos capitalistas espanhóis que há muito cá esta. Os trabalhadores brancos que preferem ser explorados pelo patrão branco. Solidariedade de raça  daqueles que precisam de se sentir seguros e que acreditam que somos a causa da sua insegurança. Aqueles que são mais eleitorado da direita do que da esquerda e que portanto para os captar a própria esquerda se serve de narrativas de insegurança e patriotismo.

Mas sim, é tudo tão normal que não é noticia onde moramos. É rotina. Não é noticia na TV caso não ardam caixotes que ponham em causa a propriedade e o normal funcionamento das coisas. Enquanto morrerem pretos mas não arderem caixotes as coisas funcionam normalmente. Na Arrentela ardeu  um autocarro e com isso apareceram logo os telejornais e os responsáveis dos programas de contenção social vulgarmente chamados de inclusão social a pedir que se acalmassem os ânimos. Mas no dia que o Dutxi acabou no hospital com o maxilar e costelas  partidas ninguém falou em contenção policial.

Houve um desses altos responsáveis que pediu à associação local para falar com o jovens e acalma-los. Respondeu-se “Já falou com a policia para se acalmar?”. A falta de resposta respondeu a tudo. A falta de reposta de todas as instituições, das nossas associações, às esquadras, aos partidos e movimentos sociais (onde incluímos a esquerda que se sugere ideologicamente anti-racista), aos tribunais responde a isto tudo com uma enorme carta branca à continuidade destes assassinatos racialmente motivados. Deste etnocidio.

O julgamento do assassino de Kuku levado até ao fim nas vias legais, nas instituições do “Direito” foi a prova final de que da justiça só podemos esperar que ela funcione bem. Como tem funcionado. Ilibando a violência do estado e o racismo. Que funcione bem para quem tem dinheiro, contactos e cor de pele para faze-la funcionar.

Para nós a única justiça que podemos esperar será aquela que pudermos conseguir pela nossa luta pelos nossos actos mas nunca a das instituições. Pois elas são o escudo desta sociedade racista.

Resta transformar as nossas senzalas em kilombos e resistir. Defendermo-nos. Sem Justiça não há paz.

Plataforma Gueto


[1] Negros que eram linchados, agredidos e depois queimados e deixados a arder pendurados numa arvore.

 
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Publicado por em Junho 27, 2013 em Plataforma Gueto

 

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