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Mulheres Negras juntam-se para reflectir sobre a sua condição e traduzem o Woman, Race and Classe, de Angela Davis para a Plataforma Gueto

08 Jun

 

No dia 1 de maio 17 mulheres negras encontraram-se a propósito da tradução para português do  livro “Woman, Race&Class” de Angela Davis.

Porque buscamos a nossa história para que possamos conhecer o papel das mulheres negras e  assim destruir a colonização da nossa mente e construirmos de forma autodeterminada os nossos pensamentos e comportamentos, começamos por definir como nos reconhecemos como mulheres negras.

 Encontramos nas nossas definições elementos que nos oprimem na condição sexista de objeto sexual; que nos caraterizam apenas na dimensão estética; que nos reduzem à condição de capacidade de ser mãe. Constatamos que na imagem que temos de nós mesmas está a apreciação que o machismo faz de nós e os papéis que a sociedade patriarcal nos incumbiu de desempenhar.

Tomámos consciência que não foi ainda dito pelas mulheres negras em Portugal o que pensam de si mesmas e como se pretendem definir, libertas da opressão do racismo e do sexismo.

Procurando saber como nos definimos do ponto de vista do caráter e do comportamento, encontramos caraterísticas como trabalhadoras, corajosas, sinceras, dedicadas, guerreiras, desenrascadas, guerreiras, inteligentes.

 Buscamos o que Angela Davis chama no seu livro de “legado da escravatura” que deu às mulheres negras “a experiência acumulada de todas essas mulheres que trabalharam arduamente debaixo do chicote dos seus donos, trabalharam, protegeram as suas famílias, lutaram contra a escravatura, e foram batidas e  violadas, mas nunca dominadas.”

Tomamos conhecimento que essas mulheres escravas “passaram para as suas descendentes nominalmente livres um legado de trabalho pesado, preserverança e auto-resiliência, um legado de tenacidade, resistência e insistência na igualdade sexual – resumindo um legado que fala das bases de uma nova natureza feminina” (capítulo1). Percebemos que as caraterísticas que reconhecemos hoje em nós não são o resultado da condição feminina, mas o resultado da condição histórica e racial das mulheres negras.

 Ouvimos o discurso de Sojourner Truth, um ex-escrava que se dirigiu a uma plateia de homens brancos e algumas mulheres brancas (quando ainda não era permitido às mulheres falarem em público) falando sobre a sua rude condição de mulher escrava, contrária à fragilidade da mulher branca atual, e que nem por isso se sentia menos mulher. Ain’t I a Women? é a pergunta que ecoou nesse discurso, e que continua a ecoar quando nos definimos com caraterísticas de força, orgulho, trabalho, determinação, inteligência e coragem. (capitulo 3) Sim, somos mulheres. Mulheres negras.

Definindo-nos a nível económico, social e educacional, encontrámos a nossa condição social. Pobres, domésticas, sobreviventes, miseráveis, desenrascadas, que apostam na educação dos filhos para serem melhores do que nós, com grande carga moral a nível de comportamento.

Encontrámos na nossa condição social aquela que nos reservaram por sermos negras. Dialogando com livro de Angela Davis tomamos conhecimento como depois da abolição da escravatura, continuamos a desempenhar os mesmos papéis domésticos – mudando apenas as pessoas para quem trabalhávamos: dos donos de escravos passamos a trabalhar para o patrão que procura incansavelmente explorar-nos para enriquecer à custa da nossa cor que nos põe, no seu ver racista, na primeira fila da exploração (capítulo 9).

Vimos como o interesse dos homens brancos em lutar pela libertação dos escravos do sul nos Estados Unidos, foi o de ir buscar mão-obra de que necessitavam. A luta do abolicionismo foi uma luta de exploradores ricos industriais capitalistas que se revoltaram contra os exploradores ricos rurais esclavagistas. No meio foi erguida a bandeira da liberdade do povo negro que trocou grilhetas e chicotadas por salários baixos e más condições de trabalho. Constatamos que ainda hoje continuamos a trabalhar como domésticas, mal pagas e exploradas. (capítulos 4 e 9)

Quanto ao feminismo que diz a alta voz defender as mulheres da opressão do machismo percebemos nas palavras de Angela Davis que esse movimento que se emancipou enquanto lutava pelo abolicionismo, porque foi quando as mulheres decidiram lutar pela libertação do povo negro que perceberam que não tinham direitos políticos; foi esse mesmo movimento abolicionista feminino que ficou chocado por ser dado primeiro o direito de voto ao homem negro antes de se dar o voto às mulheres. As mesmas mulheres que lutaram pela libertação do povo negro, disseram que se não lhes davam o direito ao voto, e se seriam governadas pelo homem, então preferiam continuar a ser governadas pelo homem branco, o letrado, educado e civilizado.(capítulo 4)

E assim vimos como os brancos que lutam por nós não aceitam em tempo algum que tenhamos mais do que eles têm. E com esse fundamento, o movimento feminista que lutava pelo sufrágio das mulheres exprimiu o racismo.

Demarca-se aqui o feminismo branco e o  feminismo negro. As mulheres negras continuaram a apoiar o direito ao voto conquistado pelos seus homens. Porque homens e mulheres negros são uma única raça. São uma única condição social e racial explorada pelo capitalismo e oprimida pelo racismo.

As mulheres negras nos Estados Unidos organizaram-se numa outra luta pelos homens (capítulo 8) – a luta contra os linchamentos dos homens mistificados de violadores. Porque para além da união racial, perceberam que a epidemia de pensamento do homem  violador, que justificou o assassinato de milhares de homens por multidões que ditavam condenações populares de morte sem direito a julgamento, andava de mão dada com uma outra ideia naturalizada nas cabeças dos homens brancos- de que as mulheres negras eram promíscuas, sexualmente disponíveis. (capítulo 11)

Chegamos então à concepção de que as mulheres negras são “quentes”. De quanto nos sentimos assim, de tanto nos dizerem que pensamos e aceitamos ser. Mas quando pelo livro da Angela Davis percebemos que somos “quentes” porque nos vêm como mulheres sem alma nas quais os homens podem soltar os seus ímpetos; que somos “quentes” porque as outras mulheres são sérias e puritanas, que somos “quentes” porque somos imorais; sacudimos essa expressão da nossa cabeça e passamos a abomina-la.

Falámos ainda sobre uma outra demarcação das mulheres negras à luta das mulheres brancas feministas aquando da defesa do direito ao aborto e das políticas de controlo de natalidade. Escutámos a Angela Davis dizer-nos que é diferente lutar pelo direito ao aborto como se luta pelo direito ao voto, porque se quer libertar da opressão de ser mãe e dona-de-casa e se pretende vingar em trajectos políticos e profissionais; e lutar pelo direito ao aborto porque se exigem condições para se realizar em segurança o aborto, não porque não se deseja ser mãe, mas porque não se tem condições para o ser, ou porque falhou o método contraceptivo.

Percebemos os motivos racistas que estiveram por detrás das políticas de controlo de natalidade (eugenia), nesse tempo em que esterilizaram definitivamente milhares de jovens e mulheres negras para garantir a pureza e domínio da raça anglo-saxónica – e que ainda hoje existem – recentemente uma mulher negra foi ameaçada de perder a tutela dos seus filhos se não aceitasse ser esterilizada.

Percebemos que as críticas dos trabalhadores sociais às famílias pobres – e negras – que têm “muitos” filhos e filhas são iminentemente racistas. Não há uma relação causa efeito entre dispor de mais ou menos dinheiro e ter mais ou menos filhos e filhas. Ser pobre ou rico é lei ditada pelo capitalismo e não por políticas de natalidade.

Por último, concluímos que Angela Davis nos mostra muitos exemplos de mulheres americanas negras que juntas, unidas por uma luta comum foram capazes de realizar mudanças, de resistir aos seus inimigos, de se libertarem de opressões. (capítulos 8 e 10)

Inspiradas por ela, convidamos as mulheres negras portuguesas a lerem o seu livro, agora traduzido, e a reflectirem sobre as suas experiências de vida de uma forma política, de forma a que se escureça o que nos oprime, quem nos subjuga, quem são os nossos inimigos, para que possamos unidas pela nossa condição social e racial (povo negro) possamos resistir e lutar.

Encontramo-nos todos os domingos entre as 11h00 e as 14h00 lendo agora as palavras de bell hooks no livro “Ain’t I a women, black women and feminist. Estão convidadas.

Até lá fiquem com a tradução livre do livro da Angela e digam das vossas reflexões:

TRADUÇÃO DISPONÍVEL AQUI: Mulheres, Raça e Classe

 

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