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UMA MANIFESTAÇÃO NÃO É UM EVENTO

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No passado 1º de maio a Plataforma Gueto organizou uma manifestação na qual  negras e negros marcharam unidos contra o racismo no trabalho,

Porque uma manifestação não é um evento, estamos a prosseguir a luta e a aprofundar o manifesto dessa marcha, identificando evidências do racismo nas nossas vidas de forma a conhecermos o impacto real desta opressão e delinearmos formas de resistência ajustadas à nossa realidade.

Iniciando a reflexão sobre esse manifesto a partir do seu primeiro parágrafo no qual se afirma que “negros e negras estão sobre-representados em setores como a limpeza, trabalho doméstico, a hotelaria, a restauração e a construção civil no mercado de trabalho cada vez mais racializado.”, mulheres unidas contra o racismo fizeram no passado domingo 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00 uma visita ao Centro Comercial Vasco da Gama, na cidade de Lisboa, uma zona considerada nobre, totalmente reabilitada para a Exposição Mundial de 1998.

Sobre este centro comercial importa referir que, tal como todas as grandes obras realizadas em Portugal, foi construído por mão-de-obra imigrante e principalmente negra. Para além disso, neste local existia um vasto núcleo de barracas onde residia uma população maioritariamente negra e imigrante, à qual além de ter sido feita a promessa de realojamento foi dito que os postos de trabalho criados nesse local também seriam para eles.

Importa relembrar que Vasco da Gama, nome atribuído ao Centro Comercial visitado, foi um dos mais prestigiados navegadores portugueses, comandante dos primeiros navios a navegar da Europa para a Índia, digno de lhe ser dedicada a obra “Os Lusíadas” de Luís de Camões. Para os negros e negras apenas retemos deste navegador a pilhagem de especiarias, riquezas e conhecimento obtidos pela escravidão de outros povos e saque em terras alheias. A façanha que a história ocidental chama de descobrimentos é uma página triste na História das negras e dos negros.

O Centro Comercial Vasco da Gama tem 170 lojas e anuncia-se no seu site como acessível por transportes públicos ou por viaturas automóveis dispondo de 2 700 lugares de estacionamento. Afirma-se como um local com uma vasta oferta comercial e esplanadas com vista sobre o rio Tejo.

 No domingo 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00, identificámos 87 negras e negros trabalhadores nas 170 lojas deste Centro Comercial. Destas 87 pessoas negras trabalhadoras, 52 trabalhavam na área da restauração (60%), das quais 36 eram mulheres e 16 eram homens.

Na área da restauração 10 dos 52 trabalhadores negras e negros trabalhavam na cozinha, distantes do contato direto com o cliente (7 mulheres e 3 homens). Contabilizamos também 3 homens negros em funções de segurança em lojas, onde supostamente se considera maior a possibilidade de furto, e 2 mulheres negras na limpeza.

É um facto que estamos sub-representados atrás dos balcões de atendimento, porque a nossa cor de pele não serve o marketing do produto e do negócio. No site do Centro Comercial Vasco da Gama são indicadas 12 tipologias de lojas desde moda e acessórios, passando por telecomunicações, brinquedos, ouriversarias, entre outros. Na nossa observação visualizámos negras e negros a trabalhar essencialmente em 3 tipologias: Alimentação, Hipermercados e Cinemas.

 Neste início de missão de concretizar com dados as afirmações do manifesto que levámos à rua no passado 1º de maio, é-nos possível comprovar pela observação do Centro Comercial Vasco da Gama no dia 7 de setembro entre as 11h00 e as 13h00, que o racismo fez-nos construir um edifício comercial que emprega centenas de pessoas, das quais apenas 87 têm pele negra, estando 60% destes trabalhadores negros afetos à restauração, área de trabalho onde se praticam horários, salários e condições de trabalho precários e exploradores.

Confirmámos no período observado que os gestores e gestoras dos recursos humanos das lojas do Centro Comercial Vasco da Gama racializaram a contratação, ao visualizarmos apenas 82 pessoas negras a trabalhar nas suas 170 lojas, estando mais de metade destas pessoas na área da restauração.

Uma manifestação não é um evento. É uma ação coletiva e contínua. A nossa invisibilidade neste centro comercial dá voz às palavras de ordem dessa manifestação. No Centro Comercial Vasco da Gama somos afastados do balcão de atendimento pela mão racista do sistema deste país. Há racismo neste centro comercial quando nos destinaram durante meses a fio a sua construção, e depois de construído reservaram-nos os dias para servir na sua área de restauração e as noites e madrugadas para o limpar.

Como refere o manifesto da marcha contra o racismo no trabalho, negros e negras “constroem casas onde nunca poderão viver; limpam corredores de universidade que não poderão frequentar; cozinham em restaurantes onde não poderão comer; auxiliam em hospitais onde nunca serão atendidos; são lojistas em lojas onde são clientes indesejáveis; caixas em supermercado onde cada vez é mais difícil encher o carrinho de compras; cuidam dos filhos das patroas durante muito mais tempo do que alguma vez poderão cuidar dos seus.”

A luta contra a opressão racista não pode ser feita por episódios. Daremos continuidade à demonstração de que o racismo no trabalho existe em Portugal e que é premente denunciar e resistir ao seu silenciamento.

 Até lá deixamos o convite para a recolha de outras evidências e reflexões.

 
 

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Terrorismo de Estado e a normalização da colonização Sionista.

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“Nós estamos com os refugiados, os refugiados martirizados da Palestina, que foram expulsos da sua patría pelas manobras do imperialismo. Estamos do lado dos refugiados da Palestina e vamos apoiar, com toda a força do nosso coração o que os filhos e as filhas da Palestina fizerem para libertarem o seu país e , também, apoiaremos com toda a nossa força, os países arábes e os países africanos, em geral, a ajudar o povo palestiniano à recuperar a sua dignidade, a sua indepedência e o seu direito à vida.”

Amílcar Cabral

 

Nos últimos dias o mundo centrou, mais uma vez, a sua atenção para o conflito no chamado Médio Oriente, isto é, para o conflito israelo-palestiniano. Em tal conflito tem-se observado diversos ataques aéreos contra a população de Gaza, tal facto pode servir como a prova irrefutável de um verdadeiro terrorismo de Estado, praticado pelo Estado Israelita. Durante muito tempo, a comunicação social e intelectuais pró-Israel procuram passar a impressão de que se tratava de um conflito entre os judeus e muçulmanos. Este tipo de observação não corresponde a verdade dos factos, visto que nem todos os árabes são muçulmanos, assim como nem todos os palestinianos são muçulmanos. Muitos deles são cristãos, por exemplo. Portanto, a nosso ver, não estamos em presença de um conflito religioso, mas sim de uma colonização.

Observamos também a tentativa de se criar uma ideia segundo a qual o conflito tem centenas de anos. Contudo, isto não é bem verdade, isto porque podemos traçar a origem desse conflito desde a Declaração de Balfour, a 2 de Novembro 1917, escrito pelo Artur James Balfour, então ministro Britânico do Exterior, o Lord Rotschild. Nessa declaração havia, claramente, a manifestação de um apoio para o projecto de criação de um Estado judaico sionista na Palestina. Esse aspecto político tinha sido planeado por Thedor Herzl, um judeu ateu, no seu livro intitulado de Estado Judeu. No entanto, esse projecto seria, somente, efetivado a 15 de Maio de 1948, data, precisamente, da criação do Estado de Israel. Desde a criação do Estado de Israel que tem-se vindo a assistir a implementação de uma política de ocupação e colonização, com a construção de colonatos paulatinamente. Devido a essa ocupação os palestinianos acabam, inevitavelmente, por ser perdem parte do território.

Este mês os habitantes da Palestina foram, novamente, bombardeados durante dia e noite pelo governo israelita, destruindo os lares e reforçando a situação de terror que se vive na região. Por essas bandas só temos acesso a alguma informações sobre o caso graças as redes sociais, que se movimenta através de pessoas singulares e movimentos sociais. Por sua vez, os meios de comunicação social mainstream têm defendido a perspectiva do Estado Sionista, como já é de costume de Israel. Assim acaba por ser natural que um dos exércitos mais fortes do mundo passou a ser visto como um Estado inocente e os resistentes palestinianos como os agressores, fundamentalistas e terroristas. É essa mesma comunicação social que dá voz ao evangelho do racismo islamofóbico, difundido a ideia segundo a qual os árabes são bombistas suicidas.

A criação de uma narrativa, de acordo com a perspectiva do colonizador racista e inocente, tem sido utilizada como justificativa para o massacre dos inocentes. Servindo ainda para condenar qualquer tentativa de defesa por parte dos palestinianos, acabando por ser rotulado de um «acto terrorista». Levando, assim, o povo a acreditar que o conflito é legal e moralmente aceitável, porque constitui-se no direito de resposta à morte de três jovens israelitas na Palestina. Outras vezes os mesmos meios de comunicação têm passado a impressão de que se trata de uma guerra entre duas forças de poderio militar equivalente que se digladiam por um território e pelos recursos da região.

A verdade é que, de um lado, temos o Estado Israel, na posição de colonizador, com um dos exércitos mais sofisticados do mundo, contado ainda com o apoiado dos Estado Unidos da América e muitos países europeus, alguns são membros da União Europeia. Por outro lado, a Palestina, que é um território colonizado, que luta quase completamente desarmado, revindicando o seu direito de autodeterminação. O povo palestiniano está, unicamente, armado com a coragem, determinação, justiça e a verdade, que está do seu lado. O Estado de Israel está a cometer, mais uma vez, crimes de guerra e contra a humanidade. Violando, por exemplo, violando todos os acordos de paz e a convenção de Genebra, porque, segundo o professor do Direito Internacional da Universidade de Ilinóis, Francis Boyle, “a Quarta Convenção de Genebra aplica-se na Cisjordânia, Faixa de Gaza e para a toda área da Cidade de Jerusalém, para a protecção dos palestinianos que residem ali”. A nosso ver, o Estado de Israel usa e abusa do facto do holocausto ocorrido na Segunda Grande Guerra Europeia – Segunda Guerra Mundial – ter originado a morte de muitos judeus. Sendo claramente esse facto que tem servido como justificativa para a sua política de ocupação, apartheid e extermínios de inocentes.

O respeito pelas leis internacionais e pelos direitos humanos não servem no caso do Estado de Isreal, visto que este contínuo irredutível a dar continuidade a sua política racista e colonialista – a construção de colonatos na Cisjordânia é bom exemplo desse facto político. Com isto, os palestinianos são expropriados das suas casas, além disso, o Estado de Israel tem cortado o acesso à água, à eletricidade aos palestianos. Em suma, há uma prática reiterada e continuada de violação ao direito internacional por parte de Isreal, que constituem na prática contra a humanidade. No entanto, a comunidade internacional não tem sido capaz de levar os responsáveis a responderem perante o Tribunal Internacional Penal. Enquanto a comunidade internacional hesita em tomar medidas práticas, os palestianos vivem com o significado de morte, porque a mensagem sionista é bastante explícita. Tal mensagem sionista não permite a possibilidade de uma coexistência pacífica e, muito menos, a solução para a criação de dois Estados.

O Estado colonizador, como qualquer com essa natureza, não aceita a existência do colonizado, porque isso constitui uma ameaça à sua existência, e qualquer forma de resistência seja pacífica ou violenta não é legítima, devendo, assim, ser reprimida com o mais alto grau de punição: a morte. Israel não pretende erradicar fisicamente a Palestina, mas sim destruir a funcionalidade da Palestina como uma sociedade. Subjugando-a política, cultural e psicologicamente, sendo esta a típica mentalidade de todo o colonizador. Por essa razão, consideramos que qualquer pessoa na sua plena consciência tem a noção que a Palestina tem o direito de exercer uma luta de resistência com vista a sua autodeterminação. Estamos com o povo resistente da Palestina e apoiamos a sua luta pela recuperação da sua dignidade. Porque a Palestina só tem duas opções: liberdade ou morte, visto que “o colonialismo só recua quando tem a faca na garganta”.

 

Por uma Palestina livre, fim ao Sionismo.

 Plataforma Gueto

 

1 -Francos, Ania, Palestina – Liberdade ou Morte – Seara Nova, 1970

2 -http://www.ifamericansknew.org/cur_sit/boyle.html

3 -Fanon, Frantz, em Defesa da Revolução Africana, Lisboa : Livraria Sá da Costa, 1980 – Coleção Terceiro mundo. 7

 
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Publicado por em Julho 22, 2014 in Plataforma Gueto

 

Plataforma Gueto – A subida eleitoral da extrema direita na Europa.

As últimas eleições europeias acabaram por ficar marcadas pela acentuada subida eleitoral da extrema-direita, um pouco por toda a Europa. Como podemos observar pela percentagem dos resultados eleitorais obtidas por essa força política nos diferentes países europeus, a saber: 25% (França), 23% (Dinamarca), 22% (Reino Unido), 20% (Áustria), 15% (Hungria), 13% (Finlândia), 12% (Grécia), 26% (Espanha). Somente na Holanda, o partido liderado por Geert Wilders não alcançou a vitória eleitoral, conforme avançavam as diversas sondagens antes do escrutínio, tendo conseguindo essa captar apenas cerca de 12,3 % dos votos.
A subida eleitoral da extrema-direita na Europa não se alastrou para Portugal, o que acabou por alegrar muitos jornais, comentadores e forças políticas de esquerda e de direita. Este texto vem desmistificar a ideia de que não há uma agenda política de extrema-direita na realidade portuguesa. Por outras palavras, o facto de não haver nenhuma representação partidária de extrema-direita nos órgãos de representação política internos e externos não significa que a sua agenda política não esteja a ser colocada em práxis. Para ilustrarmos esse facto iremos demonstrar a fraca ou inesitante representação político da extrema-direita e como o seu espaço de actuação no sistema político tem sido ocupado por outras forças partidárias.
Antes de aprofundarmos o assunto gostaríamos de precisar que hoje a extrema-direita europeia tem um discurso mais sofisticado e sedutor para atrair a classe média europeia, que se encontra bastante descrente e resignada dada as elevadas taxas de emprego que encurta o horizonte existencial dos cidadãos. Essa classe e outras não conseguem entender o ensejo histórico no qual se encontra a Europa, dado que, segundo o iminente pensador camaronês, Achille Mbembe, “a Europa já não é o centro da gravidade do mundo”1.
Esta situação histórica e o seu impacto têm sido pouco considerados pelos meios académicos e media, visto que os europeus sempre alimentaram e continuam a alimentar uma visão de superioridade cultural e intelectual em relação aos outros povos, tais povos designados, muitas vezes, como “atrasados” ou “incivilizados”. A nosso ver, a decadência europeia está na base do ressurgimento de ideologias nacionalistas, visto que os nacionalismos procuram afastar a sensação de medo existencial da classe média quanto ao presente e afectam, por conseguinte, a capacidade de perspectivar o futuro. Este facto serve para explicar por que razão 50.3% dos suíços votou a favor da reintrodução das quotas de imigração, colocando, assim, um ponto final no processo de livre circulação de pessoas na Suíça. Para muitos analistas a atitude dos suíços não faz sentido, dado que a imigração tem contribuído significativamente para o enriquecimento do país em termos económicos e culturais.
A nosso ver, a fraca representação da extrema-direita na realidade portuguesa deve-se a quatro motivos, a salientar: primeiro, a fraca participação dos portugueses em organizações políticas de massa. Por exemplo, no período do Estado Novo, quando Salazar estava no poder, nunca houve uma manifesta participação dos portugueses em eventos de grande envergadura humana. Nesse sentido, em Agosto de 1934, o ditador António de Oliveira Salazar insurgiu-se contra a tentativa de Francisco Rolão Preto de criar um movimento de massa, quando este chefiava o Movimento Nacional-Sindicalista, também designado “camisas azuis”, que se tornou, segundo o politólogo José Adelino Maltez, “na forma mais similar ao fascismo, ocorrida entre nós”2.
O segundo aspecto diz respeito ao facto da retórica e do campo de actuação da extrema-direita portuguesa estarem a ser sistematicamente ocupados pela elite conservadora e defensora de uma visão saudosista de um Portugal ultramarino. Foi precisamente essa elite que depois da queda do Estado Novo se aliou a António Spínola, enquanto este ocupava o cargo de Presidente da Junta de Salvação Nacional, e esteve também na base fundadora do CDS/PP. De salientar ainda que essa elite de direita conseguiu sobreviver ao fim do regime ditatorial, porque muitos dos seus elementos, como por exemplo Adriano Moreira, afastaram-se ou romperam com este regime antes da sua queda, por isso conseguiram obter um espaço de actuação política no pós-regime. Muitos acabaram mesmo por voltar para o meio académico, onde já tinham uma grande preponderância académica durante o Estado Novo. Veja-se, por exemplo, que foi no baluarte académico dessa elite, precisamente na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas Ultramarina, onde estudou e lecionou Mário António. Como sabemos, Mário António acabou por sustentar a tese do lusotropicalismo desenvolvida por Gilberto Freyre, ao ponto de considerar que a angolanidade é o resultado da crioulidade. Esta visão de Mário António tem sido bastante discutida e refutada por dois académicos e intelectuais angolanos, precisamente Víctor Kajibanga e Luís Kandjimbo, ambos inspirados pelos estudos sociológicos de Mário Pinto de Andrade. Os dois autores têm alertado para a necessidade de haver uma africanização no desenvolvimento do conceito de angolanidade.
De facto, a elite conservadora de direita portuguesa sustentou e suporta, ainda hoje, todas as teorias do lusotropicalismo e de angolanidade de Mário António, só desta forma consegue defende a ideia de um Portugal historicamente virado para o Atlântico ou mar, recusando, por conseguinte, valorizar o papel político de Portugal na Europa. Foi por isso que, na fase inicial, o CDS/PP posicionou-se politicamente como um partido anti-europeu, e essa luta política acabou por ser encabeçada por Jacinto Lucas Pires, um dos mais destacados militantes do CDS/PP. No entanto, com o passar dos anos e o evidente sucesso da integração europeia por parte de Portugal, o CDS converteu-se num partido pró-Europeu. Para esta alteração foi indispensável a ascensão de uma nova elite no seio dessa força, liderada Paulo Portas, sendo que tal elite passou a pautar o seu discurso a partir de uma visão mais populista, xenófobo e racista, dando maior ênfase à questão da segurança, retirando, por conseguinte, o espaço mediático e político à extrema-direita. Por isso, um dos maiores estudiosos da extrema-direita em Portugal, Riccardo Marchi, considera que “Paulo Portas, não sendo líder de um partido de extrema-direita, é o que mais preenche esse vazio: Em momentos de campanha toca muitos pontos da extrema-direita — a segurança, o enriquecimento ilícito, o orgulho nacional — sem cair no racismo ou na xenofobia”3. Acresce ainda o investigador, que o CDS apresenta “uma agenda de extrema-direita soft”4.
O terceiro diz respeito ao facto do moderno nacionalismo português basear-se, acima de tudo, numa perspectiva histórica expansionista ou ultramarina e esse aspecto não tem sido valorizado pela extrema-direita portuguesa. Isto aconteceu, porque a unidade territorial portuguesa acabou por ser efectuada bastante cedo, começando, precisamente, em 1147, quando D. Afonso Henriques, suportado por cruzados germânicos, reconquistou o Reino Islâmico de Badajoz, na Península Ibérica, aos mouros. Esse facto de Portugal ter alcançado esse fenómeno tão cedo fez com que o moderno nacionalismo português procurasse reconstituir outros aspectos identitários, assim um dos mitos populares e popularizados foi sem dúvida o sebastianismo. Segundo José Manuel Sobral (2003:1115), “o sebastianismo é um factor importantíssimo de identificação. Tanto mais que na representação messiânica desse rei que desapareceu e há-de regressar se insere uma ligação do destino de Portugal a uma missão da Providência divina, que não se pode desligar da expansão imperial do século XVI, e que um padre António Vieira prolonga no século XVII, interpretando antigas profecias em função do novo poder e do novo monarca”5.
Esse ethos nacionalista é uma propriedade de todas as elites políticas portuguesas quer do regime monárquico, quer as do regime republicano. Por exemplo, a declaração de independência do Brasil, em 1822, despertou mesmo uma crise nacional, ao ponto de alguns deputados reunidos nas cortes colocarem a hipótese de enviarem uma força militar para o Brasil. Também o “Ultimato Inglês” provocou uma espécie levantamento popular, instigado pelas elites republicanas. Esse ethos afectou, ainda, as elites do Estado Novo que embarcaram num conflito militar em três frentes em defesa de um território que consideravam seu por direito histórico, porque a perda dos territórios africanos, nas palavras do investigador português Valentim Alexandre (2006:58), colocaria “em causa a própria sobrevivência de Portugal, que poderia vir a transformar-se numa mera “adjacência da Espanha”6.
O medo de Portugal se transformar num mero “adjacente de Espanha” desapareceu com a inclusão do país num projecto transnacional (União Europeia). No entanto, o discurso transatlântico não deixou de estar presente na mente de algumas elites portuguesas panorama político português, ganhou sim um novo cunho e uma maior capacidade de integrar-se numa lógica mais ampla. Por exemplo, é bastante comum Adriano Moreira debruçar-se em diversas conferências sobre esse desígnio português e o seu legado histórico, procurando reinventar um tipo de relação entre os povos ditos “lusófonos”. Isto é algo que nos devia preocupar claramente, porque o termo lusófono constitui per se um verdadeiro atentado identitário aos povos colonizados e uma continuidade histórica colonial, ainda que mais soft. Como frisa, e bem, o escritor e o intelectual moçambicano Luís Bernardo Honwana, “o conceito de lusofonia não corresponde a nenhuma realidade sociológica ou política e não tem qualquer validade científica” (Gonçalves, 2012:1) 7. O intelectual sustenta ainda que o termo surgiu de uma “forma atabalhoada para resgatar o espaço do império cuja desaparição relegou Portugal a uma situação de subalternidade no palco europeu e mundial”8
Notamos, mais uma vez, que o espaço discursivo de um nacionalismo saudosista que a extrema-direita, precisamente o PNR, poderia ocupar acaba por estar nas “mãos” das elites portuguesas do CDS, PSD e PS. Neste sentido, o PNR tem procurado revalorizar outros mitos/valores nacionais, como, por exemplo, Viriato ou D. Afonso Henriques, duas figuras importantes na história de Portugal, mas não tão influentes na consciência nacional.
Por ultimo, o quarto aspecto diz respeito ao facto de Portugal não apresentar uma elevada tensão social, étnica e económica, isto porque em Portugal não se observa uma forte mobilização social dos imigrantes. Assim, os imigrantes acabam por efectuar os serviços ou trabalhos que os nacionais não desejam realizar no seu país, nomeadamente na construção civil, na limpeza ou restauração, como estamos cientes, áreas de actividades económicas com os mais baixos salários. Pelo que os portugueses acabam por estar numa situação societal mais favorável face aos imigrantes ou não-nacionais. Para esta situação societal em muito tem contribuído, a nosso ver, a mensagem política quer dos partidos de direita, quer de esquerda que colocam sempre a tónica na situação do trabalhador nacional e não no trabalho em solo nacional. Este tipo de mensagem política é bastante comum de encontrar nos partidos de extrema-direita na Europa, enquanto que em Portugal é recorrente encontrar nos partidos de esquerda, principalmente no PCP. Isto acaba, portanto, por mostrar que os partidos portugueses, principalmente o PCP, sofreram um processo de nacionalização da sua agenda política, retirando dessa forma o espaço mediático e de actuação política do PNR.
Acresce ainda a situação de fraca ou mesmo inexistente representação dos interesses das minorias na realidade política portuguesa. Por sua vez, nos outros países europeus, observa-se cada vez mais uma representação ou representantes dessas comunidades em órgãos políticos no plano nacional ou local, isto acaba por suscitar alguma competição política, dando, assim, espaço de manobrada aos partidos de extrema-direita. No entanto, gostaríamos de precisar que este tipo de representação nem sempre tem significado uma melhoria nas condições de vida dos imigrantes. Ainda assim, não podemos menosprezar o efeito dessa visibilidade social e política, porque pode servir de base para suportar os sonhos e as ambições dos imigrantes.
Em suma, gostaríamos de dizer que fizemos este pequeno exercício de demonstração para provar que a agenda política da extrema-direita tem sido executada sem a necessidade de haver um partido com esse rótulo político na Assembleia da República. Por isso, não é fundamental haver um partido para que a sua agenda política seja executada, sendo sim mais importante e fundamental procurarmos entender o que representa de facto a ideia de extrema-direita e que interesses têm vindo a servir. Porque, como sobejamente sabemos, o fim último dessa força ou desse tipo de forças é colocar o nacional à frente dos demais interesses presentes numa comunidade, ou seja, os sujeitos fora dessa comunidade não estão legitimados política e socialmente para apresentar e defenderem uma agenda política própria. Por exemplo, enquanto essa percepção do político subsistir no social, então teremos que continuar a conviver com a agenda política da extrema-direita.

 

Plataforma Gueto

 

1 http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/a-europa-ja-nao-e-o-centro-de-gravidade-do-mundo

2 http://maltez.info/respublica/portugalpolitico/grupospoliticos/movimento_nacional_sindicalista.htm

3 http://www.ulisboa.pt/wp-content/uploads/Clipping/3maio_professor_ISCSP.pdf
4 http://www.ulisboa.pt/wp-content/uploads/Clipping/3maio_professor_ISCSP.pdf

5 “A formação das nações e o nacionalismo: os paradigmas explicativos e o caso português”, in Análise Social, vol. XXXVII (165), 2003, 1093-1126, vol. XXXVII (165), 2003, 1093-1126.
6 http://www.ipri.pt/eventos/pdf/FLAD05_VAlexandre.pdf

7 http://www.catedraportugues.uem.mz/lib/docs/lusofonia_em_mocambique.pdf
8 http://www.catedraportugues.uem.mz/lib/docs/lusofonia_em_mocambique.pdf

 
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Publicado por em Julho 8, 2014 in Plataforma Gueto

 

Racismo no Trabalho – Hoje Concentração às 14h30 na Praça da Figueira


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Negros e negras estão sobre-representados em setores como a limpeza, trabalho doméstico, a hotelaria, a restauração e a construção civil no mercado de trabalho cada vez mais racializado.

Constroem casas onde nunca poderão viver; limpam corredores de universidade que não poderão frequentar; cozinham em restaurantes onde não poderão comer; auxiliam em hospitais onde nunca serão atendidos; são lojistas em lojas onde são clientes indesejáveis; caixas em supermercado onde cada vez é mais difícil encher o carrinho de compras; cuidam dos filhos das patroas durante muito mais tempo do que alguma vez poderão cuidar dos seus.

Mais de metade dos homens de meia-idade negros que construíram este país, as suas casas, os seus centros comerciais, os seus metropolitanos e os seus hotéis encontram-se agora desempregados, não gozarão de uma reforma.

A maioria das mulheres negras têm dois ou três trabalhos, porque é única forma de ganharem o dinheiro suficiente para sustentar minimamente os lares, trabalhando para além dos seus limites físicos, acrescentando ainda a lida doméstica diária da sua própria casa.

A emancipação das mulheres brancas tem sido suportada pelas mulheres negras que têm a seu cargo a limpeza das suas casas e a educação dos seus filhos, pelo que o feminismo vulgarmente conhecido não serviu todas as mulheres.

A taxa de desemprego entre os jovens negros e negras está acima do dobro da média nacional e muitos desses jovens nunca virão a ter uma experiência formal de trabalho, ficando sujeitos à chamada economia informal onde se incluí o crime. Muitos desses jovens acabam presos e a trabalhar pentro das prisões para várias empresas por valores indignos. Outros desses jovens acabam por ver na polícia e na militarização uma saída de emprego acabando a servir o capitalismo e o imperialismo que os oprime.

A maioria dos negros que ainda têm trabalho, muitos dos quais com habilitações superiores, encontram-se em funções desqualificadas, com vínculos precários e baixos salários.

Vários jovens negros e negras encontram-se a trabalhar nos bairros em projetos financiados apenas para controlar e conter a sua própria comunidade. Nestes projetos chegam a estar quatro meses sem receberem salário por abuso do financiador, normalmente um organismo estatal, voltando ao desemprego quando estes terminam, sem que daí resultem nem benefícios para a comunidade, nem para os próprios.

Muitos dos universitários negros e negras vêm-se obrigados a abandonar os estudos por não conseguir pagá-los.

Muitas famílias negras que trabalharam vinte a trinta anos em Portugal são agora desapropriadas das suas casas e removidas para zonas com menos serviços, com poucos transportes e mais caras para chegar ao trabalho, em edifícios de construção de má qualidade de rendas equiparadas ao mercado livre de arrendamento. Muitos ainda estão a ser coagidos por instituições públicas a abandonar o país.

Por morarem nas periferias a maioria dos trabalhadores negras e negros têm menos transportes públicos, pagam muito mais por eles e chegam demorar duas horas para chegar ao seu posto de trabalho.

Os baixos salários pagos à maioria dos trabalhadores negros e negras são absorvidos pelo passe social e renda de casa, pelo que o trabalho não nos retira da pobreza; pelo contrário, encerra-nos num ciclo de pobreza que se reproduz de geração em geração.

Na procura de trabalho as mulheres negras vêm-se obrigadas a desfrisar o cabelo e os homens negros a cortá-lo, ambos omitem o nome do local onde moram, disfarçam a pronúncia e a receiam colocar a fotografia num currículo.

Os negros e negras deste país vivem uma situação não muito diferente do tempo em que lhes foi imposto um código de indigenato cuja atual lei da imigração e da nacionalidade deixam pouco a dever. A situação de mão-de-barata ou quase escrava é uma herança e um prolongamento do colonialismo dentro e fora das metrópoles, continuando a forçar-nos a imigrar, estrangulando os países de origem e concentrando-nos em bairros semelhantes aos dos indígenas das colónias portuguesas no século passado.

As importações de mão-de-obra são uma constante na história de Portugal. Aos escravos importados no século XVI para trabalhar a terra que os portugueses abandonaram e realizar os trabalhos domésticos que os portugueses enriquecidos negavam-se a fazer; aos milhares de moçambicanos vendidos por Salazar ao regime de apartheid na África do Sul, para trabalhar nas minas de ouro; aos chamados contratados levados para Angola e São Tomé; às mais recentes importações de mão-de-obra dos anos 90 para fazer as grandes obras públicas de Portugal e trabalhar nos serviços, eufemisticamente chamam-se vagas de imigração.

Mais do que o mito dos imigrantes que têm vindo à procura de uma vida melhor temos vindo responder a necessidades de mão-de-obra escrava da indústria capitalista, sem a qual não seria possíveis as suas grandes margens de lucro e o próprio funcionamento.

Racismo e capitalismo são duas práticas associadas contra as negras e os negros. Combater o racismo no trabalho é combater ambas.

1 de Maio de 2014.

PDF AQUI: RAcismo No trabalho

 
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Publicado por em Maio 1, 2014 in Plataforma Gueto

 
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No 1º de Maio lembra que sempre tivemos os salários mais baixos e os vínculos mais precários

1ºMaio salrios mais baixos

 
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Publicado por em Abril 27, 2014 in Plataforma Gueto

 

Universidade Kwame Nkruma Cabo Verde

Link para assistir ao vivo: https://plus.google.com/events/c9dog6esq0j9g1s019qdmlafnt0

 

Universidade Kwame N'Kruma

 
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Publicado por em Abril 27, 2014 in Plataforma Gueto

 
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No 1º de Maio lembra o país que os negros não são mais escravos

1ºMaio escravos

 
 
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